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quinta-feira, julho 31

Incerteza na aplicação da definição 

O Luis Mauricio enviou-nos um comentário, que agradeço, acerca da minha temerária e incerta proposta de definição de ser vivo:

"(...) não podia deixar de "dizer" alguma coisa, acerca da definição de ser vivo publicada pelo Sérgio e à qual não apresento objecções, antes pelo contrário. No entanto e para aumentar a incerteza diria antes, a não certeza, arrisco-me a transpor a definição de ser vivo para a de organizações artificiais (vulgo empresas ou instituições), sistemas complexos criados pelo homem (ser vivo por definição tal como a conhecemos)."

Na primeira parte da minha definição de facto cabe quase tudo, as organizações artificiais, as sociedades animais e humanas, as florestas, e, porque não, todo o ecossistema Terra (há até quem o teorize). E de resto, um sistema composto ou mantido por seres vivos pode não ser um "ser vivo," mas "tem vida" de certeza. Mas aqui espreita a metáfora. Por outro lado, pode ver-se os seres vivos mais complexos como o resultado da união simbiótica de bactérias, que no decurso da evolução se foram especializando em tecidos e órgãos. E até parece lógico. Mas qual é o momento em que se passa de colónia a tecido? De não-vivo a vivo? A minha ênfase era, e continua a ser, no paradoxo que é a vida. Na forma como a sua definição nos escapa. Não era, portanto, uma das "boas definições" pedidas pelo Nuno.

Bem, e nem a propósito, encontrei hoje no Journal of Chemical Education de Junho de 2003 um artigo de "receitas para sopas pré-bióticas," um assunto que sempre me intrigou. Na bibliografia há bastantes referências (recentes) com a discussão que ainda existe sobre a origem da vida. Espero arranjar tempo para ler algumas.

E já agora, embora não tenha nada a ver com a conversa inicial, aproveito para contar a quem não saiba que, na segunda década do século XX, Mário Silva, insigne professor e investigador, manteve nos jornais uma polémica acerca da geração espontânea e da origem da vida. Um dos seus opositores era um jovem intelectual católico de direita que depois se tornou muito conhecido, Oliveira Salazar, o qual acabou por criar muitos problemas à carreira académica de Mário Silva.

O Nuno começou com a vida extraterreste e eu acabo por chegar à história...


quarta-feira, julho 30

a importância do 28  

fui à baixa no autocarro ECOVIA nº27,
levei a criança de 3 anos que queria comprar uma estrela, pesa 9 quilos e foi no carrinho de rua,
9x3 vinte e sete,
tivemos de subir o degrau do passeio 27 vezes,
tenho muita práctica, empino o carro com o pé, o automóvel na passadeira espera, tenho 27 anos e não me custa nada, subo-o quase na passada,
estava um daqueles dias abafados e húmidos de Coimbra, uns escaldantes vinte sete graus, mesmo à sombra,
gosto do calor porque me faz lembrar que o meu corpo existe, fui beber uma água fastio, ...e sete cêntimos,
o caminho de regresso é mais fácil, descer as mesmas 27 vezes um degrau de cada passeio, com a ajuda dos Santos,
não sei qual é o Santo do dia 27, gostava que houvesse um para as subidas,
no viagem de volta o motorista (habituado ao rally-paper) tenta a todo o custo manter uma velocidade média de 27km/h, o cronómetro não pára nos semáforos e STOPs, por isso a velocidade máxima tem de compensar,
o ar-condicionado não vence aos vidros abertos por isso dentro, estão uns frescos, já sabem, 27 graus.

Amanhã é dia 28.

vertigem de hiperespaço 

tempo de férias é tempo de desligar -de ficar off-line. Nunca vos aconteceu ao ler um jornal deter os olhos numa palavra ou título, julgá-la azul e sublinhada, e chegar a sentir a vertigem da viagem no hiperlink... e logo voltar a apertar o papel real nos dedos?

terça-feira, julho 29

Definições de ser vivo 

Muitas definições são tautológicas, pois vivo é o que tem vida. Outras são mágicas, pois não sabemos de onde viemos nem para onde iremos. Algumas são preguiçosas e sábias, para quê pensar nisso? E não consigo encontrar melhores que as operacionais. Afinal conseguimos distinguir os seres vivos das entidades não vivas, ou não? Arrisco o ridículo e vou fazer uma proposta.

Os seres vivos são sistemas complexos mas altamente organizados que realizam funções simples não só de autoconservação mas também de autodestruição. Que reagem de forma química e física ao meio ambiente com extrema complexidade para obter um resultado simples. A minha proposta é que são isso e sempre mais alguma coisa. Usando uma imagem da matemática, esta minha proposta de definição é como um limite que está ali mesmo à vista, mas ao qual só se chega com um número infinito de pequenos passos. E para a minha proposta ser completa incluo também a possibilidade de estar completamente errada. A vida é paradoxal, é frágil e ao mesmo tempo tão resistente, tão complexa e tão simples.

Os Pescadores 

.... à incerteza estampada no rosto,
soma-se a certeza de um esforço em vão.


Revista Cais, Maio 2003

A Banda 

No palco a Banda Sinfónica da GNR. Interpreta “Music for the Royal Fireworks” de Haendel. Atrás de mim, na assistência, outra Banda. Vieram porque o maestro ou o chefe da Banda lhes disse para virem. Falam muito, fazem muitos comentários: estão maravilhados com o número de instrumentos, com o volume do som. Haendel? Não conhecem! a peça em causa muito menos e até se irão aborrecer por ser excessivamente longa (30 minutos!). Um país à medida do Sr. Morais Sarmento!

Bagdad 

Mário Vargas Llosa esteve recentemente no Iraque e o DN começou ontem a publicar uma série de crónicas em que o escritor relata a realidade (ou irrealidade) iraquiana. O dia a dia de um país sem rei nem roque: a experiência da Anarquia, o paraíso da pirataria e dos Alibabás, “This is no good, Sir”.
No meio de muitas tragédias relatadas algumas situações pareceriam verdadeiras anedotas não fossem o reflexo da tragédia global que ali se vive. “Quando um engarrafamento atinge o paroxismo, surgem sempre voluntários que armados de apito e bastão se elegem em sinaleiros de trânsito. E os motoristas acatam as suas instruções aliviados por alguém lhes dar ordens”.

Murky 

murky, a. escuro, sombrio, lúgubre, cheio de trevas, que contém segredos desonrosos || m. darkness, escuridão cerrada || m. night noite escura como breu || m. past, passado tenebroso, passado sombrio.

in Dicionário de Português-Inglês, Porto Editora

Certezas na era das incertezas 

"Simply stated, there is no doubt that Saddam Hussein now has weapons of mass destruction."
Dick Cheeney, 26 de Agosto de 2002

"We know for a fact that there are weapons there."
Ari Fletcher, 9 de Janeiro de 2003

"Intelligence gathered by this and other governments leaves no doubt that the Iraq regime continues to possess and conceal some of the most lethal weapons ever devised."
George W. Bush, 17 de Março de 2003

Para terminar, a maior das certezas:

"The nature of terrorism is that intelligence about terrorism is murky."
Paul Wolfowitz, anteontem

É mesmo muito murky, não haja dúvida...

[citações retiradas de Warblogging]

"Duos Incertus" 

Rimas esforçadas
Entre lágrimas esperadas
Rompem lentas
Surgem rápidas

Por entre avanços e recuos
Corpos descalços em duos
Percursos difíceis e extenuantes
Já não são como dantes

Julgados frios e distantes
Permanecem perto e atentos
Com olhar calmo de sentimentos
De quem tem tudo perto,
Mas não sabe ao certo
Qual o seu destino
Que procura com afinco

Mas como encontrar
Se não sabe procurar
Aquilo que deseja!
Será incerteza ou será inveja?

Luís Maurí­cio
Jan/2003

Enviado por Luí­s Maurí­cio

segunda-feira, julho 28

O que são organismos vivos? - II 

Convenhamos que não é fácil definir organismos vivos. Sobretudo se se pretende incluir na definição a vida noutros planetas (que pode não se basear no DNA) e excluir os vírus informáticos, algoritmos genéticos, robots ou seres vivos virtuais (os Sims...). Muitas vezes a definição baseia-se na possibilidade de um organismo vivo se reproduzir, comer, morrer, etc, mas isso não é exclusivo deles. Por exemplo, o mesmo acontece com grupos de pessoas, como empresas: nascem, crescem, reproduzem-se (spin-offs), casam-se (joint-ventures), engordam/emagrecem, regem-se pela selecção natural na qual vencem as mais adaptadas ao meio em redor, comem-se (compram-se) umas às outras ;-) , morrem...

Aceitam-se boas definições de organismos vivos...

O que são organismos vivos? 

Uma definição inusitada aparece neste livro:

Living organisms are highly organized chemical systems that comply with the first and second laws of thermodynamics. They are low-entropy systems which (1) must obtain energy from external sources and (2) to support life, must have a continuous energy flow. Upon death, the flow of energy stops and entropy tends to a maximum.

Nada como ver o mundo segundo diferentes perspectivas...

Terezinha 

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalaou feito um posseiro
Dentro do meu coração

Ópera do malandro, Chico Buarque

sexta-feira, julho 25

Hereditariedade 

O meu avô José não saía de casa sem um livro para ler e um caderno para anotar os seus poemas e as suas impressões.
O meu avô José, licenciado em Germânicas, nunca teve a oportunidade de pôr um pé em Londres, muito menos na Alemanha. Conta a minha mãe, que quando era pequena ele a levava ao porto de Leixões, onde esperava os barcos alemães "para poder praticar".
Quando eu era pequena o meu avô José ensinava-me francês, "la porte", "le livre", "la fenêtre", apontando para os objectos em causa e obrigando-me a repetir. A pedagogia não era da mais moderna mas, aprendi francês.
No tempo em que o meu avô me ensinava francês, eu era convidada para as festas de anos das filhas das amigas da minha mãe. Não tinha especial simpatia por essas meninas e até as achava parvas, mas por nada deste mundo perdia essas festas: havia sumol e "sandes" de fiambre em pão de forma, e havia sempre um quarto de meninas com livros que eu lia a tarde toda, sem cuidar de outras brincadeiras ou das outras crianças.
Hoje os meus filhos, ainda crianças, não saem à rua sem um livro debaixo do braço.

Lembram-se do advogado brasileiro que veio dizer que a justiça em Portugal era salazarenta? 

Não sou agente nem parte interessada do sistema judicial, mas, do que me foi dado ver, ler e ouvir nos últimos anos, constato com incredulidade que o nosso sistema judicial parece estar ainda pior do que o do tempo de Salazar. Não considerando os sinistros e discricionários tribunais políticos e os horrendos métodos da polícia política, actualmente a justiça parece ser muito menos transparente e menos célere. Menos justa enfim.

E não se pode dizer falaciosamente que se trata de interesses, ou que se fala disto agora porque é gente famosa. Ainda bem que se trata de famosos para que o problema se torne mais visível. Porque isto parece estar mal há muito tempo. E são muitas as vozes que se ouvem. Algumas há muito tempo, mas só agora parecem estar a ser ouvidas. António Pinto Ribeiro, Garcia Pereira, Mário Soares, Freitas do Amaral, Vital Moreira e tantos outros conhecedores profundos da justiça portuguesa.

Somos o país da Europa com maior percentagem de presos preventivos e a maior percentagem de absolvições desses presos. Os arguidos podem ser presos preventivamente durante meses e até anos sem que sejam julgados. Como se fosse uma condenação antes do julgamento. No tempo de Salazar a prisão preventiva durava no máximo seis meses.

Devido a um exagerado segredo de justiça, que por vezes é quebrado em circunstâncias pouco claras, muitas vezes os arguidos não sabem por que razões são acusados. E, no entanto, podem ser interrogados durante muitas horas seguidas, muitas vezes pela noite adentro. Refira-se que, com o fim da inquisição no princípio do século XIX, tinha acabado o horrível secretismo da acusação que obrigava o arguido a adivinhar os crimes de que era acusado e quem o acusava. Tal parece estar agora de volta numa versão mais suave envolta em nebulosos formalismos e procedimentos processuais.

Por outro lado, creio que é consensual que os juizes deveriam tomar as suas decisões na sala do tribunal com a sua consciência e o seu descernimento, apenas com base na matéria de facto fornecida pelas testemunhas e provas materiais e na matéria de direito que é dirimida por quem patrocina as partes. Actualmente, de acordo com o que tenho ouvido e lido, os juizes que vão julgar os arguidos têm acesso a processos que foram constituídos na ausência de contestação por parte dos advogados destes. Os libelos acusatórios confundem-se com esses processos, podendo ter centenas de páginas. Em muitos casos, demasiadas coisas parecem ser decididas fora da sala de tribunal.

Nos tempos de Salazar a maioria das sentenças era proferida no próprio dia ou quando muito no dia seguinte. Actualmente pode esperar-se meses. Serão toleráveis mais suicídios de presos que esperam as sentenças que os absolvem?

Os tribunais superiores aparentemente não apreciam as provas obtidas na primeira instância, acabando muitas vezes os julgamentos por ter de ser repetidos. Aparentemente privilegia-se o formalismo jurídico em detrimento da apreciação dos factos e dos direitos. Os processos arrastam-se de forma interminável.

Actualmente tudo isto é agravado por um clima de suspeição e descrédito, por teorizações falaciosas e pela inevitável defesa dos interesses instalados. E, para piorar as coisas, ainda temos quem afirme que temos as melhores leis do mundo, quando se tem estado mesmo a ver que não é assim.

As prisões estão cheias de presos ligados à pequena criminalidade e ao tráfico de droga. Há o dilema dos famosos que se são perseguidos é por o serem e se o não são também. A teoria perigosa de que determinados crimes são muito difíceis de provar, deixando em aberto opções arrepiantes. Há os casos mediáticos, que vivendo de especulações e fugas ao segredo de justiça, deixam antever graves violações dos direitos dos cidadãos.

De acordo com a conhecida lei de Murphy o que pode correr mal vai correr pior. Esperemos que não.

quinta-feira, julho 24

Os filhos de Satã (II) 

Vou ser politicamente incorrecta: não me pareceu bem, nada bem, o Tony Blair regozijando-se publicamente pela morte dos “dois filhos de Satã”. Não podia estar mais de acordo com o João C., como pode um regime ou a mudança de um regime assentar na morte de alguém? Que raio de civilização é a nossa? Voltamos à Idade das Trevas ?

David(I) 

É bom saber que somos lidos!

Cara Isabel,

Há dois Davides em Florença. Um sujo, outro limpo. Do sujo, réplica do original, colocado à porta do Pallazzo Vecchio, envio-lhe uma foto, tirada em Abril. Do outro, o original, que está a tomar banho há uns meses, exposto na Galleria della Accademia, não foi possível guardar recordações fotográficas. Mas estive uma tarde inteira a olhar para ele e juro que aquele David tem vida...!

Cumprimentos,

Lénia Rufino


exílio 

o búfalo com chifres de prata
poisa no nenúfar
no nenúfar do exílio
búfalo ou borboleta_

jorge lauten (poeta timorense)

no centro de artes visuais (cav, ao pátio da inquisição) está uma exposição de fotografia chamada "hora di bai" (hora de ir, em criolo), que recomendo vivamente_ uma exposição de fotografias da lusofonia, do brasil a timor, de moçambique a cabo verde_ por razões pessoais gosto especialmente das de cabo verde e de timor (de 1999, nos momentos de tensão pré-referendo)_ vão ver, não custa nada...

meninos e meninas 

todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão_

todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninas e meninos
que morreram a defender a liberdade de armas na mão_

todos já vimos!
e então?

fernando sylvan (poeta timorense)

os filhos de satã 

e terminou assim o mistério do desaparecimento dos dois filhos de sadam_ afinal não tinham sido acolhidos pela síria (juntamente com as famosas e perigosas (pelo menos para quem as procurou obter) armas de destruição em massa), como em tempos nos quizeram fazer crer_ estavam simplesmente escondidos na região curda do iraque (e não no também famoso triângulo sunita)_ e morreram de uma forma que não viveram, quase como heróis_ lutaram pela sua vida até ao fim, não se renderam (talvez essa hipótese nem tenha sido colocada, seria uma situação muito embaraçosa para a potência ocupante capturá-los com vida_ o que fazer depois com eles sem suscitar mais polémicas, sem mais provocações?)_ viveram como déspotas sanguinários, sob a protecção e influência do pai, mas morreram a lutar_ é assim que nascem os mitos heróicos, apesar do ódio generalizado que o povo iraquiano tinha por esses dois homens, eles deram um exemplo que poderá ser seguido por outros_ foram precisos mais de 100 soldados americanos, alguns helicópteros de combate, e várias horas de tiroteio para conseguir eliminar a resistência de um punhado de homens_ calculo que os americanos não tentaram antes verificar se a informação obtida era verdadeira, atacaram a matar, mesmo correndo o risco de matar inocentes_ como no ataque "decapitador" a um restaurante em que mataram 16 inocentes_ se podem haver inocentes no iraque aos olhos da toda poderosa américa cega pelo poder da força_ a mudança de regime parece ter de passar pela eliminação física do regime anterior_ a vida humana vale cada vez menos por aqueles lados do mundo_

quarta-feira, julho 23

Nos livros. E na vida? 

O meu filho de dez anos estava a ler um livro sobre as referências que terão inspirado a autora dos livros do Harry Potter. Uma referência à deusa Minerva pareceu-me incorrecta, talvez devido a lapso de tradução. E lá estivemos, ele talvez espantado, se o espanto ainda é possível, e eu feliz por partilhar aquele momento com ele. Com os dicionários de mitologia e outros, a verificar experimentalmente que nos livros nem tudo é absolutamente certo. Sem juizos de valores, a verificar apenas.

O Sol, os gatos e os donos dos gatos 

O Sol,
quando as nuvens são mais vulneráveis,
atravessa-as
e vem aquecer os dorsos dos gatos.

Os gatos,
quando os donos estão mais disponíveis,
saltam
e vão aquecer-lhes os colos.

Os donos,
quando estão entediados,
escrevem, preguiçosamente
sobre os gatos,
sobre o Sol, ...

António Martinho

A Natureza Humana 

Um dia, na minha vã tentativa de entender a natureza humana, liguei para um desses números que aparecem nos anúncios prometendo o jardim das delícias “2 jovens, desinibidas.... recebem...”. Atendeu-me a voz mais normal deste mundo, que só se distinguia pelo tom simpático e educado. “Queria falar com....” (e disse o primeiro nome que me veio à cabeça, rezando para que não fosse o de nenhuma das duas jovens).
No entretanto, por trás da voz educada, ouvi claramente o choro de um bebé pequeno.
Balbuciei uma desculpa rápida e desliguei precipitadamente.

Sabedoria 

Uma catraia de não mais de três anos segue à minha frente, pela mão da mãe, a caminho da Ludoteca:
-Quando me chamares para me vir embora, eu não vou ouvir.
-Ah! e porquê?
-Vou estar distraída!

sem ti 

e de súbito desaba o silêncio_
é um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas_

só nas minhas mãos
ouço a música das tuas_

eugénio de andrade, poesia, 2000

mar sonoro 

mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim_
a tua beleza aumenta quando estamos sós_
e tão fundo intimamente a tua voz
segue o mais secreto bailar do meu sonho
que momentos há em que eu suponho
seres um milagre criado só para mim_

sophia de mello breyner andresen, obra poética, 1998

terça-feira, julho 22

Teatro na Penitenciária 

Apareceram recentemente no A Natureza do Mal dois textos referentes à Penitenciária de Coimbra, de um gostei muito, do outro não gostei nada (facto que para os autores dos textos não deve ter a menor relevância).
Não tenho sequer a certeza de que as cadeias sejam um mal necessário, tenho sim a firme convicção de que deviam ser a última das últimas soluções (e que nem sempre o são) e que para a maioria dos desgraçados(as) que lá estão, ninguém ganha com isso, nem eles nem a sociedade.
Tenho ainda a convicção de que tudo o que humanize esses bocados da nossa sociedade é bom, é positivo. Discursos aparte.
Aqueles muros fazem parte do meu percurso diário, todos as dias vejo as famílias, maioritariamente ciganas (que em termos de solidariedade têm muito que nos ensinar), à espera da hora da visita mas, convenientemente ignoro... e sigo o percurso dos meus dias. Como a maioria dos habitantes de Coimbra não conheço essas gentes nem os seus dramas, convenientemente...
Mas como acredito que quem está lá dentro, são pessoas e não presos e como estar envolvido com os outros e com um projecto é bom, e porque fazer teatro é bom, acredito nesse projecto de fazer uma peça de teatro dentro da Penitenciária e para a cidade. Até e sobretudo para não nos esquecermos deles.

PS Tenho ainda mais uma razão para acreditar. Enquanto membro do TEUC trabalhei por várias vezes com o encenador em causa, o André Kowalski, um humanista que tem uma capacidade imensa de cativar as personalidades mais diversas.

Não seduzir 

Preencher os espaços vazios,
dos dias longos,
sem um escudeiro que nos sirva os sorrisos
e as palavras que nos apetecem.

E procurá-lo
com vontade de partilhar o tempo oco
que decorre solitário,
sob o luar ou o Verão de Março.

Não seduzir transforma os dias em praias vazias,
onde a única imagem humana que mexe é a nossa
[própria sombra.


António Martinho in “Não Seduzir”

bombas 

tenho um sonho recorrente em que apresento um projecto ambicioso ao ministério da defesa que consiste no desenvolvimento de bombas de neutrinos_ esqueçam as bombas nucleares de urânio e plutónio, esqueçam as bombas de hidrogénio e de neutrões, estas são as bombas "perfeitas"_ não existe protecção contra os neutrinos, eles passam através de tudo_ um bunker, por mais profundo que seja, por mais reforçado que esteja, por mais remota a sua localização, não oferece quaisquer resistência aos penetrantes neutrinos_ claro que estes também não interagem, e logo não afectam, os edifícios, os objectos ou os seres vivos_ logo são as bombas "ideais", não fazem nada e nada se pode fazer contra elas!
num registo mais sério coloco o desenvolvimento de bombas electromagnéticas, bombas que criam um pulso electromagnético de tal forma forte que todas a electrónica é destruída_ esta bomba tem a capacidade de nivelar as guerras, ou seja, torná-las mais equilibradas_ e ninguém se lança numa guerra senão tiver uma forte certeza de que vai ganhar_ se esta bomba "democratizar" as guerras, se aumentar a incerteza quanto ao seu desfecho, acho que levará os seus instigadores a pensar muitas mauis vezes e mais seriamente antes de se lançarem em tal aventura_ uma guerra sem electrónica faz com que esta regrida muitas décadas_ sem aviação (ou apenas uma aviação muito rudimentar), sem mísseis (inteligentes ou dos outros), sem gps, sem lasers, sem aparelhos de visão nocturna, sem drones, torna-se uma guerra convencional clássica, com poucos meios de distribuição das famosas armas de destruição em massa_ uma guerra mortal (como a primeira guerra mundial) mas que se arrasta durante muito tempo, logo muito impopular (se uma guerra pode ser popular quando é contra as populações de um lado e de outro)_

segunda-feira, julho 21

Guimarães 

Mais uma vez um bom exemplo vindo de Guimarães, o Museu Alberto Sampaio, um belíssimo museu, durante os meses de Verão só fecha à meia-noite. Haja iniciativa(s)!

A frase do fim de semana 

Estou que não posso!

Vilar de Mouros 2003

livros 

O meu amigo Tó (António Martinho) publicou o seu primeiro livro “Não seduzir”. É um livro de poemas (textos diz ele) límpidos e quase sempre felizes, tal e qual deviam ser os nossos dias. A editora, a Sílvia (da Alinhavar, de Leiria) contou um bocadinho da história do livro: disse que ele tinha sido necessário para o António se poder libertar daqueles 98 poemas (textos ?) e poder partir para outros e contou ainda que aquele livro tinha sido “feito” de uma forma artesanal, com as folhas fotocopiadas, dobradas e coladas uma a uma, com muito carinho. Com o carinho que se deve pôr nos livros, digo eu, que os livros não são para ser vendidos em supermercados!

Fazer sacrifícios... 

Fazer sacríficios para dar um futuro melhor aos filhos, para ajudar os seres humanos que precisam, viver de forma simples e recusar o consumismo, praticar as virtudes cristãs ou outras, por exemplo, tem, ou julga-se que tem, recompensas futuras, ou imediatas, mas visíveis. Agora os sacrifícios que envolvem toda a humanidade, ou apenas um estado, como poderemos ver as suas recompensas? Como poderemos ter certezas? Em quem acreditar? Como poderemos fazer sacrifícios se não conseguimos adivinhar os resultados. Se quase sempre esses sacrifícios são destinados a agendas imediatas como o famoso défice, ou são em nome de um futuro que sempre tarda em vir. Tenho muitas incertezas sobre tudo isto. O que não quer dizer que ache que se deva ficar de braços cruzados.

o tempo político 

o político moderno orienta toda a sua actividade política por sondagens de opinião, gestores de imagem e assessores (não eleitos) para as mais diversas áreas_ tudo isto seria normal se o único objectivo do político não fosse a sua continuidade no poder_ o poder pelo poder, e não uma qualquer ideia para a sociedade que quer implementar_ vão assim limitar-se a fazer o que as pessoas "médias" pensam que é melhor para elas, pelo menos a curto prazo_ tudo é pensado a muito curto prazo, o tempo do seu mandato_ o que interessa é tomar decisões que tenham bons efeitos no curto prazo, por mais desastrosos que sejam no médio e longo prazo, e evitar aquelas desagradáveis no curto prazo, por mais benéficos que sejam os seus efeitos a longo prazo_ claro que a culpa deste estado de coisas não é dos políticos, eles apenas reagem às leis do mercado_ as pessoas é que deviam ser levadas a pensar para além dos benefícios directos imediatos_ a pensar numa outra escala temporal_ a aceitar alguns sacrifícios em nome de um futuro melhor_ pelo menos até ao próximo governo ser eleito e alterar toda a orientação do estado!

tecnologia 

só uma preocupação/incerteza relativa aos tempos felizes que vivemos_ se a tecnologia tem evoluído a um ritmo extraordinário, tornando reais possibilidades que nem os mais visionários autores de ficção científica previram, é preocupante a generalizada ignorância científica da população utilizadora dessa mesma tecnologia_ aparentemente está a ser criada uma elite científica e tecnológica: as pessoas que sabem como as coisas funcionam e que sabem construír essas coisas_ esse é um poder extraordinário, principalmente porque está nas mãos apenas de alguns, das grandes corporações que têm os meios financeiros, tecnológicos e os conhecimentos para criar, construir, divulgar e comercializar essa tecnologia_ a democratização da tecnologia é uma coisa boa_ mas nem toda a tecnologia criada chega às pessoas_ quem escolhe o que chega ao mercado, e como é feita essa escolha, é uma coisa relativamente misteriosa, que tem a ver com marketing e estudos de opinião e processos afins_ mas quem pode saber o que o mercado quer quando o produto é revolucionário? os desenvolvimentos tecnológicos são de investimento intensivo e quase sempre orientados para o mercado, logo têm de ser cuidadosamente pensados_ isto limitará inevitavelmente a criatividade científica e, consequentemente, o desenvolvimento tecnológico, o qual será orientado para o que o mercado quer e não para o que as pessoas precisam_ se calhar não interessa muito desenvolver vacinas para a malária, ou sementes para as condições da etiópia, ou coisas do género_ não existe "mercado" para estes desenvolvimentos_
mas se pudesse escolher, estes eram os tempos em que quereria viver_

sexta-feira, julho 18

Rumo à incerteza 

Temos sorte. Vivemos os tempos mais interessantes de sempre da humanidade. Nunca a evolução técnica e científica foi tão grande e rápida quanto hoje, nunca tanto mudou tão rapidamente. Cada nova descoberta, cada novo gadget traz consigo uma revolução que muda para sempre a nossa maneira de agir. E abre a porta para muitas outras revoluções. Tudo está no início, por inventar, por aplicar, somos os pioneiros dos próximos brave new worlds. O computador. As telecomunicações. A Internet. As redes sem fios. As biotecnologias. A robótica. A miniaturização. Tudo o resto. As revoluções sucedem-se diariamente, e pela primeira vez na história podemos assistir a tudo em directo, com todo o pormenor. Mas ainda a procissão vai no adro.

Um exemplo. Dentro de muito pouco tempo, a maioria das pessoas terá permanentemente no seu bolso um telemóvel com câmara de vídeo, ligação rápida à internet e a possibilidade de descarregar por exemplo para um blogue pessoal aquilo que está a acontecer à sua volta. Texto, voz, som, imagens, video. Tudo isto é hoje possível, mas ainda não chegou à maioria das pessoas. Está quase a chegar. Pela primeira vez, quando alguma coisa acontece no mundo, vai haver alguém logo ao lado a registar tudo com uma câmara e instantaneamente a deixar tudo na internet para os outros verem/ouvirem/lerem. O desvio de um avião por terroristas em directo. Por instantes, qualquer um de nós poderá ser uma CNN ou BBC. Isto vai mudar o mundo das notícias para sempre. E a sociedade também.

Estamos a mudar radicalmente esta sociedade mundial constituída por uma rede de indivíduos inteligentes que reagem à informação exterior e que interagem uns com os outros em função dessa informação. Antes, a informação era essencialmente de proximidade, hoje em dia é cada vez mais global e isso muda tudo. Como um peixe que reage ao sinal de perigo enviado por um outro peixe situado na ponta oposta de um enorme cardume. Como aconteceu com a pneumonia atípica.

Temos azar. Vivemos nos tempos mais perigosos de sempre. Sobre nós pesa a responsabilidade de decidir o melhor rumo para a humanidade, em tempos onde ela está a mudar a ritmo avassalador e onde ela tem um impacto cada vez maior em tudo o que a rodeia. Infelizmente, não compreendemos quase nada da dinâmica da sociedade. Não sabemos como ela se comportará se mudarmos a topologia da rede e o fluxo de informação. E basta um bit para mudar a sociedade. Os iraquianos têm armas de destruição em massa e pensam usá-las. Sim ou não?

Compreender a dinâmica da sociedade é demasiado complexo para uma mente humana isolada, mas talvez muitas mentes humanas, pensando organizadamente com vista a um mesmo fim, a pudessem compreender em parte. No entanto, a inteligência da sociedade mundial actual vista como um todo é pequena, certamente menor do que a soma das partes quando poderia ser muito maior. Basta ver a eternização do problema da pobreza e da fome. Nós, ínfimos neurónios nesta enorme rede social, ainda não nos sabemos organizar para procurar compreender juntos o futuro.

A humanidade é um carro guiado por formigas, cada vez a maior velocidade. Umas poucas influenciam todas as outras, mas a maioria praticamente não conta. Nenhuma compreende o todo. Muitas estão no acelerador, algumas no travão, outras nas mudanças, outras no volante... Conseguiremos com este rumo incerto chegar ao El Dorado sem que falte o combustível, ou vamos chocar antes disso?




David 

O David que mora em Florença faz este ano 503 anos e está sujo, muito sujo! O David foi criado por Michelangelo (o meu amigo Antonio, italiano, arrepia-se cada vez que ouve os portugueses chamarem ao seu compatriota escultor, Miguel Ângelo, e terá a sua razão) e tomou o último banho no século 19. Agora os maiores especialistas de restauro discutem o tipo de banho que a criatura há-de tomar, se mais drástico, se mais suave .... e o assunto é sério, muito sério!

Abando 

Oh Abas, Oh companheiros Abas, onde estão, que não vos vejo, que não vos oiço?

Ainda Álvaro de Campos 

A propósito ou a despropósito:


Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

...

Álvaro de Campos

Des(ordem) 

Será que sempre foi assim e nós é que não sabíamos? Ou é chegada uma nova (des)ordem ? Mas que assusta, assusta. Antigamente sabia-se que a sexta-feira era o dia do escandalozinho da semana pela boca de “O Independente”. Mas agora todos os canais de televisão, os jornais, o procurador geral, os juizes do TIC, os políticos, a Assembleia da Republica, o governo, o bastonário, pedem meças ao semanário e parecem apostados em darem-nos um nó no cérebro, os escândalos já não se contam às semanas mas aos minutos, aos segundos. Alguém percebe alguma coisa? Afinal é para confiar na justiça? E nas instituições, confia-se em quais? Afinal o que é que é constitucional? E o direito ao sossego é constitucional? Quem é que me explica o que se passa? Afinal quais são os bons? E os maus? E os maus serão castigados ? Todos? Até o senhor Bush? Desculpem-me a falta de optimismo, mas estaremos mesmo a caminhar para uma maior justiça? Ai! quero férias!

Apatia famogénica 

Apatia famogénica: A presunção de que não vale a pena exercer qualquer actividade a não ser que se fique famoso no seu exercício. A apatia famogénica assemelha-se à preguiça, mas as suas raízes são muito mais profundas.

D. Coupland, Geração X.

quinta-feira, julho 17

A incerteza das imagens 

Há pouco mais de um mês, ainda a campanha publicitária da nova marca de Coimbra enchia os placards das ruas, recebi um mail que alertava para a possibilidade da marca ser um plágio: afinal, ela era muito parecida com o logo da Quintiles, uma multinacional do ramo farmacêutico. Realmente, uma imagem parecia a outra vista ao espelho. As letras também eram parecidas. Escândalo.

No entanto, uma observação mais cuidadosa deixava perceber algumas diferenças subtis: a espessura do círculo relativamente ao seu diâmetro era diferente e o mesmo acontecia com a espessura do “corte” no círculo. Se a relação entre essas distâncias fosse a mesma nos dois símbolos, quase de certeza haveria plágio, pois seria demasiada coincidência. Mas como era diferente, a incerteza continuava.

Penso que este tipo de dúvida irá colocar-se cada vez com mais frequência. Primeiro, porque a internet permitiu o acesso a trabalhos excelentes e tornou o plágio fácil. Segundo, porque agora rapidamente se pesquisa o mundo para saber se há algo igual (há até software especializado para apanhar plágios). Terceiro, porque a probabilidade de se criarem dois objectos iguais de forma independente é finita, sobretudo quando são objectos simples, como neste caso.

Recentemente, o autor veio a público defender-se, numa carta publicada no Diário de Coimbra no passado dia 4. Tinha um link que aponta para imagem abaixo (clique para ampliar), que descreve a evolução da marca em 255 passos até atingir a forma final (com tantas imagens, escolheu-se logo a que era parecida com uma marca internacional... bem, se calhar acontecia o mesmo com outras).

Por mim, acredito que não tenha havido plágio. E agora que me habituei, gosto da marca sim senhor.


petróleo 

o petróleo parece ser a fonte de todos os males do mundo_ mas não é, as pessoas que gerem estes recursos é que são_ parece que a descoberta de petróleo num país é um factor de destabilização, injustiça e desigualdade em vez de ser o motor de desenvolvimento_ mas não tem de ser assim, depende apenas das pessoas envolvidas, não é uma fatalidade_ uma grande responsabilidade cai também sobre as companhias que estimulam a corrupção, a má gestão, as ditaduras, pois daí poderão tirar maiores lucros_ não lhes interessa muito um país bem gerido que exija as justas contrapartidas_ interessa mais criar uma elite corrupta ou uma monarquia absolutista_ todos nós conhecemos bem este cenário (desde angola à nigéria, da arábia saudita ao brunei)_ para mim o caso mais bem sucedido, que deveria ser bem estudado pelos dirigentes e servir de exemplo, é a noruega, para quem o petróleo, ao ser bem gerido, permite assegurar a riqueza presente e futura_ esperemos que seja este o exemplo seguido por são tomé e por timor lorosa'e_

quarta-feira, julho 16

Golpe de Estado em São Tomé 

Ainda nem há a certeza da existência de petróleo e os estragos que este poderá vir a fazer num dos países mais pobres do mundo já se fazem sentir. É a sina africana, quanto mais ricos em recursos naturais mais desgraçados. Nunca até hoje essa riqueza trouxe felicidade e bem-estar ao povo africano. Compare-se Moçambique, que após as lutas pós-independência goza de paz, com a muito mais rica Angola ...

P.S. Há muito, desde que se ouviu em falar em petróleo em S. Tomé, que uma revista chamada “Além-Mar”, pertença dos Missionários Combonianos tem vindo a alertar para os riscos que corre este país. A Além-Mar é uma revista fantástica que não teme denunciar as injustiças e hipocrisias mundiais, chamando as coisas pelos seus nomes. Liderou, por exemplo, em 2002 um movimento de recolha de assinaturas contra o “Comércio de Armas” .

António Lobo Antunes 

A mim perguntam-me, com igual incompreensão, porque não saio, não me divirto, não vivo. A frase é exactamente esta - Não gostas de viver? - e continua a pasmar-me. Depois percebo que não há nada mais chato para os outros do que um homem que não se chateia. As pessoas que se chateiam precisam, como elas dizem, de distrair-se, de viver: cinemas, jantares, viagens, fins-de-semana. E riem, são aquilo a que se chama boas companhias, conversam. Eu detesto distrair-me, ter de ser simpático, ouvir coisas que não me interessam. Não frequento lançamentos, festas, bares... Não falo. Não apareço. Não me vêem...
(António Lobo Antunes, In Visão, 10 de Julho de 2003)
Enviado pela Marta C

terça-feira, julho 15

A incerteza do futuro 

Os recentes acontecimentos levaram-me a reflectir no futuro deste blogue. Olhando para o passado, ou seja, fazendo scroll para baixo, descobrimos um rol já invejável de atribulações e de incertezas. O presente está aqui, neste texto. O futuro, esse, vem de cima, escondido algures por detrás do mote "A incerteza como princí­pio", do título "A aba de Heisenberg" e do anúncio do "BlogSpot". Olhando para um futuro mais longí­nquo, mais para cima, vejo endereços www, links, ícones, search, favorites, media, menus (File, Edit, View, Help,...) e mais acima ainda... AARGH! Microsoft Internet Explorer! Mais acima no futuro, vejo um perturbante autocolante no meu monitor com os dizeres: Ecology, Energy, Emissions, Ergonomics. Páro para pensar. Mais longe, uma parede branca. E, no infinito, uma certeza: o tecto é o limite!

china 

como muitos especialistas reconhecem, a china poderá ser a grande potência deste novo século, tanto a nível económico como militar_ na minha opinião é o único potencial rival dos eua que se vislumbra no horizonte (a ue poderá "apenas" ser uma potência ao nível económico e do respeito dos direitos humanos, para além do baluarte cultural que já é, e que deveria/poderia também estar na vanguarda da produção cultural científica)_ a china ainda é um país muito sub-desenvolvido no que diz respeito ao desrespeito dos direitos humanos mais básicos_ possui um aparelho repressivo de grande eficácia e brutalidade_ é uma sociedade ainda bastante cruel, onde a vida humana tem muito pouco valor, onde a exploração existe em larga escala, e as assimetrias crescem a um ritmo galopante_ os salários baixissimos estimulam a deslocalização das empresas do mundo desenvolvido, levando a que a tendência seja para tudo ser produzido na china (e noutros países do sudeste asiático) _ o problema vai ocorrer quando eles também começarem a desenvolver e comercializar os seus próprios produtos pois já aprenderam como se faz...
isto tudo para dizer que sendo a china o único potencial rival ao poder absoluto dos eua, estes devem estar bastante atentos aos seus desenvolvimentos, e ninguém se atreve a contrariar a vontade dos senhores do império do meio_ seja pôr em causa as flagrantes violações dos direitos humanos, seja a ocupação brutal e ilegal do tibete_ ninguém se atreve a afrontar a china, ou os eua, com receio da sua reacção e prováveis sanções_ por alguma razão nenhum destes países faz parte ou reconhece o tribunal penal internacional para julgar os seus próprios nacionais_ e considera-se isso quase natural_

compay segundo 

no domingo passado morreu o compay segundo, com a provecta idade de 96 anos _ com uma vida atribulada, tanto antes como após a revolução cubana, encontrou merecida fama internacional depois do inesperado êxito do trabalho "Buena Vista Social Club", coordenado e estimulado por ry cooder, e do filme homónimo de wim wenders _ penso que terá morrido feliz, após a vida completa que teve, possivelmente agarrado ao seu inseparável charuto (ele durante um período da sua vida trabalhou a enrolar charutos) _ o seu nome verdadeiro, que não recordo, foi completamente ofuscado pelo seu nome "artístico", compay segundo, que tem origem num dos primeiros grupos que formou, um dueto chamado "os compadres" (ele era um dos dois compadres, compay para os cubanos) _

Nem tudo o que parece é 

Quero primeiro lamentar a saída do Luís Januário e dizer-lhe que continuarei atenta aos seus escritos, estejam eles onde estiverem. Afinal a incerteza neste blog é mais em sentido lato...
Sendo quase todos nós, os que escrevem neste blog, trabalhadores da ciência e sabendo que muitos deles estão muito interessados nestas coisas de ozono, buraco do ozono e poluição e etc. trago à praça pública isto é à ABA um destaque da Nature desta semana.
Em NewYork até as árvores são maiores! árvores da mesma espécie crescem mais em New York do que nos arredores da cidade. A razão deste estranho acontecimento parece estar nos níveis de ozono, principal poluente das plantas, que no coração da Big Apple chegam quase a zero. Ironicamente o ozono é produzido por reacção dos poluentes atmosféricos com a luz solar, mas por ser uma molécula extraordinariamente reactiva rapidamente desaparece por reacção com outros poluentes como sejam os óxidos de nitrogénio. O que tudo isto significa? Deixo a discussão para os vindouros. Quem quer pegar no assunto?

Referências
Gregg, J. W., Jones, C. G. & Dawson, T. E. Urbanization effects on tree growth in the vicinity of New York City. Nature, 424, 183 - 187, (2003).

Regresso à terra da alegria- A natureza do mal 

Não gosto que me digam o que se diz blog e o que não se diz blog- apetece-me logo dizer blog o que não se diz blog. Não me apetece escrever sobre os filhos e netos- já chega a Laurinda Alves e o Eduardo de Sá e o outro Sampaio. Vou-me embora! Adeus. Vou escrever noutro blog. Quem quiser que me encontre.

Qualquer coisa assim 

"Não te amo
porque o amor acaba
Não te quero
porque o que tenho é muito
Procuro a tua sombra
porque me ajuda a sonhar
Quero o teu desejo
às vezes
Quero este sentimento incerto"

A. ou B. ou C. ou aba ou qualquer coisa assim

(ATL)


Aviz: reparação 

Aviz é um dos melhores blogs e fui injusto para com o FJ Viegas quando disse, há dias, que ele não me voltava a enganar. Aviz é um lugar atento ao que de novo surge na blogosfera, tem um preconceito contra a esquerda mas a esquerda merece. Além disso quem fala assim do Camus e do Dicionário Khazar, quem edita Larkin, merece aplauso. Consta que o FJV regressa em breve com um programa de livros. De certeza que vai ser bom e nesse dia vou acender a televisão.

segunda-feira, julho 14

Coerência incerta ou.. certamente incoerentes? 

Timor, Iraque, Bósnia, Ruanda... Condutas e princípios, no mínimo, questionáveis, é um facto ...

Mas já agora, permitam-me juntar mais uma variável a esta complexa equação de (des)interesses.... Tibete!!

Bradou-se pelo mundo fora as atrocidades em Timor-Leste, a nação vestiu-se de branco, promoveram-se cordões humanos, atacou-se sites, fizeram-se petições...

E depois veio o.. Dalai Lama! Veio, mas... não veio!

A mesma classe política, e o mesmo consenso... mas desta vez para fingir que afinal ele não andava por cá! Que no Tibete não há chacinas, opressão, limpezas étnicas e atrocidades que, num outro cenário, tanta dor nos causavam... Tudo condimentado com uma dose qb de apatia social...

Que triste ver este pais agachado perante as "sugestões" chinesas.... E logo de quem tanto, uns meses antes, clamou unanimemente pela liberdade e justiça de um povo oprimido...

Tempos e atitudes deveras incertos estes...


Incerteza? 

E agora, depois de admitir que não foi por causa da ameaça de armas de
destruição massiva que se atacou o Iraque, fica tudo bem ? Somos amigos na
mesma? Os civis mortos, a destruição, a pilhagem são danos colaterais para
nada, por engano? E não há um Tribunal Internacional para investigar estes
"enganos"? E não se fala disso? Bom, pelo menos temos uma certeza. É
que os Estados Unidos mais uma vez não vão responder perante o mundo por mais
este engano como não responderam por Hiroshima, Vietname, etc.,etc.,etc. e
vão-se safar impunes. Quando quiserem os Açores para fazer parte do seu
território será que vão dizer que estamos a fabricar armas biológicas através
da produção de bactérias nocivas do leite?

Enviado por Gó.

O Estado da Nação 

Sou uma avó. De Coimbra. A tal do Mini. Há quem não goste, mas eu gosto. Do Mini. Tenho netos. E histórias para contar. Dos netos. Que os filhos não gostam que eu fale deles. Um emigrou. Para fora de Portugal. Outro também. Para fora de Coimbra. E outro anda a ver em que param as modas. Os netos emigrados falam três línguas. Ela vai para o quarto de banho de livro debaixo do braço. Ele é mais máquinas e assim. Contam o que fazem na escola. Lá no país onde estão agora. Um dia divertiram-se à brava. A professora trouxe uma rampa de madeira. E todos tiraram os sapatos. Que foram para o topo da rampa. Grande algazarra. Ai o cheiro do pezinho. Competição de sapatos na rampa. Que vai inclinando. E vão contando os que escorregam. E o meu sapato aguenta mais que o teu. E vão fazendo um histograma. Não sabem que o é. Mas percebem o que estão a fazer. Miúdos de 6 anos. Cá no país que deixaram há cursos universitários de Física Geral sem experiências de laboratório. Tenho muitas saudades. Dos netos. Mas desejo que cresçam lá longe. Noutro país.

Impressões pessoais e erráticas sobre a bola 

A existência objectiva de uma comunidade que partilha uma coisa subjectiva, que é uma fé comum num clube, transforma o futebol numa espécie de religião. Eu não fui agraciado com esse tipo de fé e por isso não tenho clube. Mas, visto de outra forma, há alguma vantagem nisso, também nenhum clube me possui a mim.

Este fim de semana fui rumo ao norte e passei perto do novo "campo de futebol" do Futebol Clube do Porto. É branco, o que contrasta com o negro do que estão a construir aqui em Coimbra. E provavelmente com as cores de muitos outros que há em construção pelo país. Apenas e só "campos de futebol," porque lhes eliminaram as pistas de atletismo. É triste que assim seja, porque estão a ser construidos com o dinheiro dos nossos impostos.

Mas não quero ser injusto. Lembro o Centro Cultural de Belém e a Expo 98. Lembro como nos fomos habituando e aprendendo a gostar deles e como acabámos por esquecer as críticas que haviamos feito, as quais foram muitas vezes conduzidas pelas agendas políticas. Acredito que irá provavelmente acontecer o mesmo com a Casa da Música.

Com os "campos de futebol" já antevejo o momento em que a Pátria Portuguesa se vai reconciliar com eles em nome do Orgulho Nacional e dos clubes de estimação de cada um (ena tanta maiúscula). E que felicidade será; "que povo tão empreendedor" dirão alguns...

Mas não é a mesma coisa. Só os tolos podem ficar presos a orgulhos nacionais de circunstância futebolística. Acredito que em Portugal o futebol tem sido um dos muitos impecilhos ao crescimento cultural. E não me venham com "Bolas," que essa estória já tem barbas.

Para mim, o futebol enquanto fenómeno generalizado, não é cultura no sentido moderno. É antes "uma cultura" como o são as da moda ou as culturas dos fãs dos grupos rock ou pop. Porque cultura é o que nos afasta da brutalidade, dos instintos básicos e do efémero. Ademais estas culturas envolvem muito comércio e massificação, sendo por isso também culturas alienantes.

Cada adepto vive as peripécias do campeonato e as realizações da sua equipa como fazendo parte da sua vida íntima. A sucessão de metonímias que nos põe dentro do campo a ganhar a taça com a "nossa selecção," ou a chorar e a procurar culpar alguém pela sua perda, pode ser fantástica em termos antropológicos mas não faz crescer a cultura dos cidadãos. É apenas e só circo.

Resistir é preciso. Cito de memória o presidente do Boavista, quando este ganhou o campeonato, que num momento de lucidez inesquecível terá dito "Sim é uma grande alegria, mas já tive outras maiores como o nascimento dos meus filhos..."

epíblogo, para (i)blógica da triblogia  

blog 1
A pressão do ter de produzir, da medida da utilidade em números. A especialização para a produção. O fim da versatilidade, da abrangência cultural, da amplitude de conhecimento.

blog 2
A necessidade da afirmação individual, da opinião própria e original como paradoxo. O constatar de que tantas vezes, se segue (nem que seja o anti-seguidismo), por irracional ilógica inquestionada paixão. Não que haja mal nenhum nisso. Chamo-lhe benfiquismo, sem falar de futebol.

blog 3
As coisas que fazemos todos os dias e que levam o tempo (muitas com inquestionável prazer). A falta do questionar, a saudade do ousar (mesmo a experiência de chegar com o fósforo ao cesto de papéis só para ver o que acontece). A defesa da liberdade para a utopia. Não só para a global e distante, mas também para a que nos implica e responsabiliza. Incómoda (?).

domingo, julho 13

Timor vs Iraque 

Admito que tive certezas em relação ao caso de Timor. Aliás, a julgar pela
mobilização dos Portugueses e de todos os partidos políticos, no caso de Timor
houve verdadeiro consenso. Temos de admitir que, no caso do Iraque, as certezas
não foram tantas e por uma razão muito simples. Nós que vivemos num país onde
há liberdade de expressão (será que existe?-não tenho a certeza!), sentimo-nos
instintivamente revoltados pelo facto de continuarem existir pessoas oprimidas
e violadas nos seus direitos mais básicos, pelo simples facto de demonstrarem
não ter certezas em relação aos seus regimes opressores. Não será preciso
recordar a Bósnia ou o Ruanda. A questão básica que se levanta é
assustadoramente simples e que pode ser pretexto para alguns países esconderem
as suas verdadeiras intenções: - devemos ficar a assistir à violação permanente
dos direitos humanos, mesmo quando há interesses mais ou menos subjectivos, que
inviabilizem uma intervenção imediata? Há alguém que tenha certezas absolutas
na busca desta resposta?

Enviado por Martim.

Que difícil é apagar a chama 

Ninguém é o que parece
todos querem ser aquilo que merecem
e os que parecem o que são
não são outra coisa que não conviesse.
Convém ser o que o vizinho não é
Não porque ele é,
Mas porque não se deve ser
um ser igual.
Se o vizinho diz
eu desdigo
O vizinho vê
eu cego
E ele ouve
eu mudo
Ele dá
eu recuso
Ofereçe
Não agradeço
Ele não cede
eu não cedo
Se vem com medo
Recebo
Se não vem
Fujo.
Ninguém se reduz
Ninguém se revê
Ninguém se desmente
Ninguém perdoa
Ninguém se emenda
Ninguém se engana
Ninguém por um segundo
Apaga a sua chama.

Enviado por Martim.

A incerteza de ganhar a paz 

Washington Post: o General Tommy Franks disse na passada quinta-feira que no Iraque há por dia 10 a 25 acidentes violentos com as tropas americanas. Aquilo que se ouve nas notícias é a ponta do icebergue, portanto.

A incerteza do rumo 

Vejo este blogue como um espaço onde se move um conjunto de peixes. Esses peixes têm diferentes perspectivas, por se encontrarem em diferentes posições neste mundo n-dimensional formado pelas 3 dimensões do espaço, pela dimensão temporal e por n-4 dimensões provenientes das nossas diferentes e variadas vivências. Essas múltiplas perspectivas fazem com que cada um de nós se aperceba do complexo mundo que nos rodeia de forma diferente. A soma dessas percepções permite-nos conhecê-lo melhor do que se estivéssemos sós.

Num dia os peixes podem estar cada um para seu lado, noutro dia podem formar um cardume compacto. Cada peixe é um indivíduo, faz o que quer.

Quando os peixes estão isolados, o grupo explora uma porção maior de espaço, adquirindo em princípio mais conhecimento. Contudo, se não houver comunicação interindivíduos esse conhecimento-soma perde-se, fica disperso, limitado a cada indivíduo. Cada peixe fica com uma visão muito limitada da realidade.

Se todos peixes tivessem a mesma perspectiva do mundo que os rodeia, ou seja, se todos os peixes olhassem na mesma direcção a partir do mesmo ponto e pensassem da mesma maneira, não haveria vantagem em estar num cardume. As vantagens decorrem do facto de cada um olhar para sítios diferentes de forma diferente, permitindo a um de nós ver algo que os outros não viram e assim alertar o grupo para um petisco ou para um perigo. Um só elemento do cardume pode fazer o cardume mover-se numa dada direcção ou dispersar-se, de forma espontânea. A direcção do cardume, essa, é incerta e vai variando em função das descobertas que o grupo faz.

Nos grupos de pessoas, os raciocínios são mais elaborados, as interacções entre indivíduos mais complexas e acontece por vezes alguns quererem deliberadamente levar o grupo numa dada direcção. Paradoxalmente, nas sociedades humanas supostamente livres, vivemos bastante atados. Somos constantemente solicitados para nos movermos para ali, fazermos isto, comprarmos aquilo. Há sempre alguém ou algo que quer que façamos qualquer coisa, limitando-nos os movimentos. Felizmente, há uma rede, também chamada teia, que paradoxalmente nos liberta. E há um espaço, infinitamente pequeno nesta gigantesca rede, onde o princípio da incerteza de Heisenberg se aplica e onde é impossível termos certas certezas, por mais que queiramos.

Para mim, a incerteza do rumo deste blogue é um dos seus prazeres. Cada indivíduo tem absoluta liberdade para falar do que lhe apetece. Não me interessa saber para onde vamos, basta-me saber que nos movemos livremente e que nos divertimos na viagem.

Des-aba-r? Não: des-aba-far. Que este blogue seja o princípio da incerteza e da liberdade para muitos de nós.

E para aumentar a incerteza, não estavam à espera que depois deste paleio vos fosse falar dos boids, pois não? Que maluqueira meu, estragaste tudo. Que é isso dos boids?

sexta-feira, julho 11

JMF no seu melhor... ou seria para rir se não fosse para chorar 

Leram o editorial do "Público"? José Manuel Fernandes no seu melhor! Uma pérola do maniqueísmo e do raciocínio simplista (simplório?) a que o director do "Público" já nos habituou: a BBC que acusou o Governo de Tony Blair de grave manipulação de dados na questão das armas de destruição maciça do Iraque (que desmando!) e que agora não se retracta e que por isso será castigada; o New York Times que foi abertamente contra a guerra (que horror!) "uma posição quase solitária nos Estados Unidos" (sic), e que por isso atraiu a fúria do Bom Deus que premeia os bons e castiga os maus, "escândalos sucessivos de plágios e histórias inventadas" (sic). G.W. Bush não diria melhor!

des-aba-r? 

Farmácia de serviço: diz-se blog
Cartaz cultural de Coimbra: diz-se blog
O que dá na Arte: diz-se blog
O Sting, o Lou Reed e o Mia Couto: diz-se blog
Extractos soltos do dicionário: diz-se blog
Extractos do manual de zoologia: diz-se blog
O que fiz hoje acrítico: diz-se blog
Quanto custa não-sei-quê: diz-se blog
Conversa intra-blog: diz-se blog

A denúncia dos casos particulares que só servem aos próprios na generalização que afinal serve a toda a gente: não se diz blog
A crítica mordaz que pega fogo ao mundo: não se diz blog
Digerir a informação e exprimir livremente o pensamento: não se diz blog
Levantar incertezas sobre as certezas: não se diz blog

Heisenberg desaba...

Mulheres tremei! 

Apesar de ser bem conhecido o mecanismo molecular da acção da ampicilina, este e outros antibióticos foram considerados “responsáveis” por mais de 60 gravidezes só no Reino Unido, apesar das mulheres em causa tomarem cuidadosamente a “pilula”. A explicação é simples: os esteróides são reabsorvidos ao nível do tracto gastro-intestinal e nesse processo intervém uma obscura bactériazinha que habita esses locais recônditos. Bom, matando a bactéria... Pharmacology Brain Teasers

bom bordo 

Os sentidos aguçam o ser, há um precipício no devir que apela ao voo. Dizer no ermo, no silêncio, o sentido das emoções, sabe a cascatas no olhar. O horizonte enevoado prolonga-se por fim para lá da música. Nas ondas sem rumo defino a estrela, como se por caminhos nos fins de tarde outonais. Nas sombras dos matagais, julgo ver personagens com memória. A luz refecte-se nos contornos dos montes e corta como o frio. A vida essa, paira no esvoaçar dos tordos que se afastam em bandos para leste. O tempo estende então o manto lilás sobre a existência. Vagamente e de contornos incertos reconheço pétalas no sobressalto da vigília.
Rui Pena dos Reis


No concerto do Lou Reed 

Fui com um grupo de amigos verdadeiros fãs. Jantamos na "Taberna". Quando a empregada disse que estávamos na mesa onde Ele jantara na noite anterior foi um delírio. O João Pedro na cadeira do Lou Reed. A Teresa na cadeira do Antony. O Gil na cadeira do mestre chinês. Eu a Anne e R. já não me lembro. Comemos migas e posta como eles. Escrevemos no livro de honra na pagina adjacente à dele. Até tiraram fotografias... Chegamos ao portão do jardim cedí­ssimo. Quase uma hora à espera mas fomos os primeiros a entrar. Ocupamos as três primeiras filas centrais contra a vontade das meninas de vermelho com ar de hospedeiras de bordo. Daqui não saí­mos daqui ninguém nos tira. Também gostei muito do concerto e vibrei com o solo de violoncelo. Não gostei especialmente da canção do Fernando (imitação pouco talentosa de Eric Clapton).Vi aquela besta a vaiar o Antony tinha mesmo cara de javardo. .

ATL

uma questão de certeza 

Era uma vez, há muitos anos, um professor japonês chamado K. com quem eu colaborei. Uma manhã pensámos e elaborámos os dois um protocolo de trabalho para a minha tarde. Ele saíu cedo e eu fiquei. Fiquei e pensei e não fiz nada do protocolo. Na manhã seguinte ele voltou e perguntou e eu, inocente, disse: não fiz, pensei. Ante o meu ar incrédulo, ele gritou, primeiro em japonês, depois em inglês muito alto e depois em inglês -até eu perceber- you should have told me first. Depois conversámos e eu, corajoso e trémulo, expliquei o erro do protocolo: para quê medir se bastou pensar?
Dias mais tarde eu passei a ser o único no laboratório a quem ele pagou um lanche, disse-me: "se um aluno fizer tudo o que o mestre lhe diz só o pode igualar, nunca ultrapassar". Mas ainda tremo de pensar que eu podia estar errado...

n'A festa de incertezas 

eu também estive lá, falei com dois abas e nenhum me foi apresentado...

Agit-Prop 

João Miguel onde andas tu? Ainda estás connosco?
Pois é, o João iniciou a sua aventura nos boletins neotecnológicos aqui, bebeu da nossa vasta experiência :-), escreveu resolvi iniciar o meu próprio blog e sugere agitar-propriamente. Antes de ler?

quinta-feira, julho 10


A festa cala a crítica 

"A festa cala a crítica". Isto disse o Carlos Fortuna ontem, a propósito da Coimbra 2003, no debate sobre "A Cidade e a Cultura" promovido pelo Bloco de Esquerda, na casa da cultura. (Conheci lá um "aba" que me foi apresentado por outro, já conhecido - é giro este processo de identificação!). Mas voltando ao assunto, quer dizer que nos dão circo e a gente se cala? Quer dizer que a capital nacional se reduz, aqui nesta cidade, a "fogo de artifício" ? Que não se cria nenhuma dinâmica de avaliação e projecção da continuidade? Não temos equipamentos, é mais que sabido. Mas acho que nesta catadupa de happenings se conseguiu, apesar de tudo, explorar potencialidades insuspeitadas - a acústica não é das melhores? As cadeiras são incómodas? Mas o ambiente, o cenário são de valorizar. Caber-nos-á, enquanto cidadãos e cidadãs desta cidade, exigir que nem todos os espaços agora desencantados "fechem para obras" no declinar das badaladas da meia-noite de 2003...

O melhor do mundo são as crianças 

Olá George W. Bush.

Escrevo-lhe para lhe dizer como podemos construir um futuro melhor. O senhor pensa que se acabam as guerras fazendo outras. Está enganado, pode acabar com uma guerra mas começa com outra. A guerra acaba quando as pessoas decidem não lutar mais.
Se o senhor se juntar à guerra, a esperança de a guerra acabar vai diminuindo.
...
Chega uma altura que ninguém tem coragem para pedir perdão ao seu irmão ...
Falando a guerra pode acabar, mas com guerra a guerra nunca acabará.
...
Em África há muita pobreza por causa da guerra, países muito secos, zonas muito isoladas e o que falei há bocado que é a má distribuição da riqueza.
...
O vosso país é o mais rico do Mundo. Podia ajudar os países mais pobres por exemplo: a Angola, Moçambique, Afeganistão, Palestina, o novo país Timor e muitos mais. Podem não ajudar só com dinheiro porque ás vezes o dinheiro é mal gasto: em armas, em investigação para fazer armas mais potentes ... Podem ajudar com comida, com medicamentos, comunicação como o telefone, agricultura que se adapte aquela região, médicos, professores, bombeiros para combater os fogos, polícias para combater as brigas, construtores para construir e reconstruir casas e muito mais.
João, 10 anos Março 2003

Le Dormeur du Val 

C'est un trou de verdure où chante une rivière
Accrochant follement aux herbes des haillons
D'argent ; où le soleil de la montagne fière
Luit ; c'est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort ; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature berce-le chaudement : il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.

Arthur Rimbaud

A arte de calar 

Em 1771 o abade de Dinouart, que havia sido excomungado por ter editado em 1746 um livro chamado "O triunfo do sexo," escreveu "A arte de calar" (edição portuguesa da Teorema) cujos princípios são mais ou menos estes:

1. Só deve deixar-se de estar calado se houver algo a dizer que valha mais do que o silêncio.

2. Há um tempo para calar e outro para falar. O tempo para calar é sempre o primeiro.

3. Só no silêncio o homem é senhor de si. Fora dele é mais dos outros que de si.

4. Tendo coisa importante a dizer deve pensar-se muito e, após refletir bem, voltar a pensar tudo outra vez, para não haver arrependimento quando já não se pode reter o que foi dito.

5. Quando a vontade de falar é muito grande deve desconfiar-se imediatamente que possa não ser bom abandonar o silêncio.

6. Não há mais mérito em explicar o que se sabe que em calar o que se ignora.

7. Em geral arrisca-se menos não falando. No entanto, não há menos imprudência em calar quando se deve falar quanto há leviandade em falar quando se deve calar.

8. O silêncio faz as vezes de capacidade nos obtusos, de sensatez nos tolos e de sabedoria nos ignorantes.

9. É preferível ser suspeito de não ter talento por estar calado que ser conhecido como tolo por falar demais.

10. Raramente nos queixamos da brevidade, mas queixamo-nos sempre da longura.

11. Quando se trata de um segredo o silêncio nunca é demais.

12. Há que ser sempre sincero. Podemos reter alguns pensamentos mas não devemos disfarçar nenhum. Há maneiras de calar sem fechar o coração, de ser discreto sem ser taciturno, de esconder a verdade sem a cobrir de mentiras.

Pérolas da net 

O blogue mais aborrecido e o website mais pequeno do mundo.

quarta-feira, julho 9

Sismo 

Num profundo silêncio, como se do nada se tratasse, todos esperamos. A desordem
browniana que nos associa, parece, de longe, um suspiro. Sob os nossos pés, no
mais nobre lugar, por vales ou montes, bosques ou desertos, mares ou horizontes,
o dia acaba sempre por chegar. Nesse momento a terra pode tremer com fragor, as
águas arrasar com espasmos de viscosidade, as lamas correr como
dragões. No céu a cor é agnóstica. E então, cavamos de novo as vinhas, limpamos
as oliveiras e com sorte podemos esfregar alecrim nas nossas mãos.
Rui Pena dos Reis

na guerra do Iraque fui pelo Benfica 

Interessante, a retoma do assunto Iraque (afinal de contas, por todo o lado se diz que é importante a retoma, que venha ela...).
Mas, desculpem, não encontro nada de novo. O suporte da decisão da guerra é simples: o regime iraquiano não tem armas de destruição em massa.
Se tivesse não havia guerra. Pelo menos esta guerra.

Mais interessante ainda, o seguidismo. Todos acham que existe, mas ninguém se acha parte. O que, em si, já poderia significar a existência do seguidismo dos que dizem que não o são. Mas então: Serão tolos todos os seguidistas? Como não se interessam pela contra-corrente, supostamente mais inteligente? Será supremo alinhar no que poucos alinham, (inconfessadamente) porque poucos alinham?
Pelo sim, pelo não, do meio deste pasquim neotecnológico, me declaro benfiquista.

Net watch... 

Um blog fotográfico (Sapo 'dixit') e um site com 1001 receitas culinárias...

E passo a assinar como Luis T para evitar confusões

Mais Álvaro de Campos 

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...


Poesias de Álvaro de Campos

Centro de histocompatibilidade 

Pronto, já está! Fui inscrever-me como possível dador de medula. Para já não custou nada, só tive que preencher um formulário rápido. O próximo passo não vai custar nada: vão recolher um pouco do meu sangue. A seguir ... possa eu ser útil para alguém, que é o que faz de nós seres humanos. Fui esclarecida de que em qualquer altura posso desistir sem sequer ter que me explicar. Não me dêem os parabéns! Passem por lá também http://www.chsul.pt!

ausência 

num deserto sem água
numa noite sem lua
num país sem nome
ou numa terra nua

por maior que seja o desespero
nenhuma ausência é mais funda do que a tua

sophia de mello breyner

a favor da europa... 

...as boas notícias (relativas).

A europa tem liderado a defesa do princípio da precaução dos OGM (não por razões altruístas, receio) e a redução da emissão dos gases de efeito de estufa (idem) talvez a outra-fórmula para a economia passe por aqui.

A importância da incerteza 

O João traduziu muito bem o que sinto relativamente à guerra do Iraque (ver texto "porque sim" mais abaixo). Eu também procurei compreender os diferentes pontos de vista, sobretudo aqueles que eram contrários à minha opinião, tentando fazê-lo sem preconceitos e desapaixonadamente. É difícil, mas era necessário para tentar saber se aquilo que me parecia inconcebível à primeira vista poderia ter afinal alguma justificação aceitável. Mas não: no meio de tanta desinformação de parte a parte, a informação que fui recolhendo, seleccionando e variando as fontes, leva-me a crer que a guerra se fez porque havia a oportunidade e não porque havia uma justificação válida.

A juntar às inúmeras incertezas desta guerra, há ainda a incerteza dos números. Esses números da morte de que não gosto de falar, porque uma morte já é demais e a estatística nada resolve, mas vai ter de ser. No Público de hoje, mas também na CNN por exemplo, li mais notícias sobre atentados às forças americanas no Iraque. Uma vez mais, era referido o número de soldados americanos mortos (30) desde que Bush declarou o fim da guerra a 1 de Maio. Contudo, como já vai sendo hábito, nada se diz sobre o número de civis iraquianos mortos desde então.

Felizmente há um site que nos informa de forma séria acerca desses números: o Iraq Body Count. Digo que é de forma séria porque permite-nos avaliar a incerteza desses números, coisa rara nos tempos que correm. E a incerteza contém informação importante.

Neste momento, o contador marca 6055 (mínimo) e 7706 (máximo). O valor real encontra-se provavelmente entre estes limites. Vale a pena pensar na diferença entre os 2 valores: 1651 civis iraquianos que não se sabe se morreram ou não. Vale a pena repetir: 1651. Este número quantifica a nossa ignorância, a incapacidade e/ou a falta de vontade em avaliar os efeitos de actos de guerra não justificados. Esta incerteza quantifica as dificuldades práticas em determinar o número de mortes, mas também e talvez sobretudo, o grau de desinformação, de propaganda, de mentira (de ambos os lados) e de desrespeito pelos cidadãos do mundo que têm direito de saber a verdade. Em última análise, esta incerteza quantifica o desrespeito pela vida humana.

Por uma questão de respeito, decidi-me a contar o número de iraquianos mortos desde 1 de Maio de 2003. Igualmente por respeito, acho que esse número não deve ser comparado com o número de americanos mortos. Não faria sentido. Mas esse número tem de ser contado: 93 (mínimo), 105 (máximo).

toda uma existência por um pensamento 

acreditem, sobre a guerra já tudo foi dito. Sobre as passadas, o Iraque e as que virão. Sabemos que não foi "a natureza boa" que nos ensinou a guerra se nem o bem e o mal nos ensinou. Dito que está tudo, queria trocar toda uma existência por esse pensamento repetido até à exaustão. E isto devia bastar para o mundo compreender. Só depois de cada um de nós ter incorporado esta ideia no corpo podemos partir.

Infelizmente não é assim. Depois de aberta mais esta caixa de Pandora para onde nos levará a caixa de ressonância? Lembro-me de, nos dias seguintes ao início da guerra, na pressa de comentar em todos os canais, os mais variados comentadores preconizarem o fim da ONU... isso não aconteceu, e ao invés os grandes líderes em desacordo estão já em claro alinhamento. Penso que este resultado não é surpreendente porque a história conta-nos que a ONU teve outras crises no passado. Não sou especialista em assuntos internacionais mas melhor do que sobreviver não teria sido aproveitar a crise na ONU para a repensar enquadrando-a nos novos (des-)equílibrios do planeta? E com isso a (re-)credibilizar e fortalecer?

Um outro assunto em debate activo na Europa é o da existência de um ministro dos negócios-estrangeiros-comum, coisa que me parece essencial para ter uma política-internacional-comum e um papel a nível mundial. Ouvi já dois comentadores, em ocasiões diferentes referir que isso é impossível enquanto não tivermos um exército-comum-europeu. Temo que a manter-se o euro forte uma corrida aos armamentos ganhe corpo na europa como forma de aumentar as exportações e assim o euro forte... esta foi, julgo eu, a política dos EU desde a era Reagan. Outra-fórmula para a economia precisa-se.

Cacharel 

No hiper dos perfumes a empregada declina a sua preferência pelos perfumes fortes, ditos de velhas, para uso irregular, de dia e de verão, pois claro. Olho-a divertido, com apreço pela coragem que revela em falar de si mesma, desafiando o bom senso e o contrato a recibo verde. Peço-lhe um exemplo e ela retira quase sem hesitar, da farta escolha, um Cacharel afinal não tão doce, pesado ou almiscarado como ameaçara.

Abelaira 

Acho que devíamos evocar Augusto Abelaira na sua morte. Não se edita e acho que quase ninguém o lê. Mas foi importante para a geração que era jovem no tempo da Cidade das Flores e da Enseada Amena e que vivia castrada entre o salazarismo e a vulgata neo-realista que pensava que f... era burguês.

Blogs 

Blog de esquerda: um consolo que exista. Conheçoo há pouco tempo mas o que o JM Silva escreveu de Paris é excelente. As notas da viagem de regresso a Portugal também são muito boas, refazendo esse trajecto mí­tico, a estrada dos portugueses. Se o JM Silva é o mesmo que em 2001 editou na Gótica o livro de poesia Nuvens e Labirintos (desculpem a ignorância) então está a escrever muito melhor (já o fazia bem):

" Sabemos que as palavras
nos protegem do mundo.
Mas quem nos protege
das palavras?"

Aviz. Uma escrita com alguma serenidade. Mas eu no perdôo ao FJ Viegas ter-me enganado.

Abrupto. Um esforço do Grande Manipulador para conquistar (mais) adeptos. Mas admiro a energia, a combatividade. E um homem que tem amigas que escrevem cartas como aquela carta de Timor de há dias tem de ter qualidades. Se ele ao menos um momento parasse de ser uma máquina de triturar, de convencer, de destruir à passagem e escutasse...

O blog do Miguel Vale de Almeida: Elegante. Entusiamado sem perder o sentido crítico nem o humor.

Dicionário Diabo: Eu desculpo tudo a um dos meus poetas favoritos. Esse que escreveu Em Memória e Eliot e outras observações, o poeta dessa cidade deserta , apenas habitada pelos que não puderam partir para fins-de -semana tão miseráveis como o destes velhos que conhecem os horários dos shoppings centers, um Manuel de Freitas com menos alcoól e mais medo das mulheres, pode ser vesgo para a esquerda, cheio de uma raiva injusta. Não me importo muito. Eu compreendi que o que o fez ser de direita é um pouco o que me fez ser de esquerda. Não aceitar que as coisas tenham de ser "assim". Que sejam sempre os mesmos a ditar as normas, o que está bem, o que deve ser e como . Que exista uma sociedade formatada por gente a quem não reconhecemos qualidade, nem bom gosto, nem cultura.

O post anterior do -Luis T-  

Sobre o meu anterior post (assinado por "Luis" e apelidado pelo Sérgio de "Luis T."), e quase de forma telegráfica:

- Parece-me claro e óbvio, que peguei de facto num caso actual e concreto e parti no sentido de opinar sobre algo mais geral que atormenta os nossos dias e a nossa forma de viver... Ou pelo menos a minha pois, como em tudo, acredito há quem se dê muito bem com as coisas assim.

- Se tenho interesse particular neste caso concreto? Claro que tenho... tenho-o como cidadão, contribuinte e ser social!

- Acho que casos e ideias gerais interessam sempre debater, e mesmo os particulares podem levar-nos à reflexão sobre questões importantíssimas; se achasse que nem uns nem outros tinham qualquer relevância não tentava sequer digerir a informação e pensamentos -felizmente todos com forte cunho pessoal- que por aqui se vão exprimindo...

- Não ouso, nem ousarei, fazer passar sentidos universais de justiça. Parece-me é que esta é tão importante quando se debatem grandes causas internacionais como é em tudo o que, de facto, altera a nossa forma de estar e de viver...

- Mais do que as incertezas, chocam-me certas certezas da justiça. E preocupo-me sobretudo com quem "leva" com elas em cima... Por maior incerteza que possa haver do lado de quem "pisa", parece-me quem é "esmagado" fica com pouca margem para tal.. Mas são opiniões, claro!

- Será que clamar por justiça no contexto mencionado é pegar fogo ao mundo? Se sim, incineremos o sistema judicial de alto a baixo e promovam-se os incendiários ao que, afinal, poderão ser: justiceiros iluminados dos tempos modernos!

- Já agora desculpem-me se feri alguma susceptibilidade.. Não foi meu interesse concreto fazê-lo; mas, olhado para trás, e tendo em conta o que o texto aborda, parece mais que evidente que é quase incontornável que tal possa suceder...


Pronto, era só isto....

terça-feira, julho 8

Iraque, porque sim. 

Sim, talvez, é uma boa hipótese. Claro que o petróleo é importante. E que erradicar um regime que não é obediente é tentador. Mas pode não ser determinante. Pode ser que os países que adquiriram dimensão para se mover à escala mundial se comportem aí como grandes organismos vivos. Pode ser que as plutocracias que verdadeiramente decidem a política externa de um país o façam reguladas pelas mesmas leis primordiais que determinam (probabilisticamente) o comportamento dos seres vivos. Os EUA invadiram o Iraque simplesmente porque tinham os meios para o fazer, vontade de o fazer, possibilidade de o fazer. Simplesmente porque sim. Como o tigre brincando com uma presa entre as patas. Preparando-se para batalhas futuras, essas sim decisivas. Para manter apurado o seu potencial ofensivo. Para cumprir o seu destino de predador. Porque aqueles genes, que permitiram que ele seja esse animal magnifíco que ontem venceu a guerra fria, alisou as montanhas do Afganistão, pôs a velha Mãe Europa de joelhos e hoje se dirige tranquilamente para África, aqueles genes foram ligados.

e contra isso também 

sou contra a globalização
sou contra a europa
contra a farmácia de serviço
contra a guerra
a ONU
sou contra o trabalho infantil
contra a incineração
as radiografias por satélite
contra Fátima Felgueiras
contra Fátima
e Felgueiras
sou contra a incerteza
contra a corrente.

e também sou contra quem é contra. Pronto, agora disse! É para que se saiba.

IMPRESSÕES 

Um fim de semana de Harley-Davisson nas Ramblas. Voltar ao Parque Güell. Revisitar as formas voluptuosas dos tectos da casa Batlló enquanto se vislumbra o fervilhar de gente, no Passeig de Gracia, através do policromado da generosa vidraça, que confere ao interior uma luz mágica. E admirar, sempre, a ousadia do espírito de Gaudí, tentando perscrutar o seu imaginário infantil (?), ou louco (?) ou simplesmente de uma dimensão que ainda não conseguimos alcançar? Também as tapas, as canhas, a sangria. Também a perfumada profusão de cor do mercado de La Boqueria. E a descida em teleférico sobre o porto, até ao descontraído fim-de-tarde na Barceloneta. A namorar…
(seguiram-se três dias de trabalho (a sério!) no Instituto Catalã de Oncologia)

porque sim 

apenas uma pequena e humilde contribuição para a discussão em relação ao iraque _ depois de muitos meses a pensar, a ler, a discutir, a falar com os outros e, principalmente, a ouvir os outros, depois de ter colocado inúmeras hipóteses e de passo a passo as ter rejeitado (o método científico é aplicável a mais áreas do pensamento do que geralmente se pensa, ou não pensa) cheguei à seguinte conclusão _
acho que as causas para a guerra não foram as invocadas _ isto parece uma constatação óbvia, mas por trás de uma decisão tão grave como a de entrar numa guerra com outro país, os dirigentes pensam muito nas consequências _ têm inúmeros conselheiros, e grupos de trabalho, e pensadores mais ou menos brilhantes e capazes, por trás deles _ dizer que os outros, os que não pensam como nós, estão claramente errados, que são burros, ou que têm segundas intenções secretas, não é o melhor caminho para chegar à verdade (seja lá isso que fôr) _ mas depois de dar o benifício da dúvida aos instigadores do conflito, cheguei à conclusão que ele não foi originado pelas razões apontadas _ não me conseguiram convencer porque não me apresentaram provas _ não basta dizer que o sadam é/era um facínora _ os dirigentes da coreia do norte também o são _ e os da libéria _ e do sudão _ e de muitos outros lugares _ a questão do controlo de recursos estratégicos parece mais convincente _ mas ainda não está cabalmente provado que seja essa a razão primeira _ isto deixa-me com a última e assustadora hipótese _
os americanos atacaram o iraque porque podiam _ assim, sem mais _ o mais assustador num serial killer são as mortes serem arbitrárias, sem uma causa bem definida _ e o ataque ao iraque parece encaixar-se neste tipo de crimes _ existe um padrão, mas não uma causa única _ é assustador porque qualquer país que se possua esse padrão ténue pode ser o próximo a ser libertado _ pode ser atacado porque pode _
mas sempre foi assim _ nos séculos passados as grandes potências europeias passavam a vida a atacar os mais fracos invocando para isso fracas razões _ atacavam os mais fracos apenas porque o podiam fazer impunemente e isso lhes trazia alguma vantagem, por mais pequena e ridícula que fosse _

sobre o texto do Luis T 

Não posso concordar e muito me entristece que neste blogue se discutam casos (de) particulares ou se escreva num estilo "a justiça haverá de apanhar todos os maus" rejeitando todas as incertezas possíveis. Os casos gerais não costumam servir a ninguém e os casos particulares só costumam servir aos próprios. Além disso, não me parece que o mundo melhore se lhe pusermos fogo...

Diplomas académicos... chumbos em ética! 

Felizmente a imprensa regional e mesmo nacional tem feito eco de uma muito recente deliberação do Tribunal de Coimbra. E se é certo que é raro ver catadráticos condenados, felizmente que a Justiça começa a morder os calcanhares de certos feudos universitários que se julgam acima da Lei...

E não tenhamos ilusões, fosse a Justiça portuguesa célere e implacável, e não seriam apenas pedófilos, presidentes de câmara, corruptos e larápios de 3a categoria a responder pelos seus actos... Haveria muita gente de "formação académica superior ou mais que superior" (palavras da juíza Helena Lamas) a ter que assumir a (ir)responsabilidade pela prepotência, corporativismo, arrogância institucional e "panelinhas caciqueiras" inimagináveis que, à revelia da causa pública que TÊM que prestar, vai pautando a sua actuação.

Isto de ser visionário, reformista, ultra-democrata democrata e tudo o mais "politicamente correcto" que se possa imaginar é de facto muito nobre... Sobretudo para jornais e restantes "media"... O pior é ver o que depois alguns fazem "nas suas casas".

Mas vamos com calma... É certo que a morosidade judicial e a panóplia de recursos vai protegendo quem prevarica mas, com paciência, vamos esperando por estas pequenas ENORMES "vitórias". E daqui seguem os meus fortes parabéns a quem viu os tribunal dar-lhe razão. Quando de superior há apenas o grau académico, às vezes é mesmo preciso que sejam os tribunais a vir dar umas pinceladas de ética... Sempre na esperança que esta "camada" não salte já na próxima confrontação ou concurso, entenda-se...

O caminho é longo, mas é certamente este... Que se acautele quem ainda vai pensando que a posição académica lhes confere o grau de "iluminados da nação" e os vai livrando de cumprir mas mesmas Leis que o comum dos cidadãos... Como se o estatuto profissional os promovesse a mais do que isso!


Diálogo entre dois russos 

- Tudo o que nos disseram sobre o comunismo era mentira.
- O mais grave é que tudo o que nos disseram sobre o capitalismo era verdade...

(contado no filme Às segundas ao sol; Las Lunes al sol, de Fernando Léon de Aranca com Javier Bardem)

Ana Paula Inácio 

Que os poemas dela enfunem a Aba, neste seu começo titubeante. Ela que escreveu:

"queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos."

Chama-me Sónia 

A menina estava doente (já quase boa), na cama do hospital (quase sentada). Ele vinha a entrar de serviço. Olhou para a ficha de internamento, leu em silêncio o nome dela (Marta Inês). Perguntou-lhe (assim lhe tinham ensinado): -Olá, como é que queres que te chamemos? Ela sorriu, feliz com aquele grau de liberdade:- Chama-me Sónia!

O Iraque finalmente 

Porque deixámos (nós esquerda) de falar sobre o Iraque? Porque a barragem ideológica, mais que o brilho das armas nos venceu? Porque o José Lamego, apoiado pelo governo português e pelas empresas nacionais que contam ter direito a uma fracção do direito de saque (expressão do Miguel Sousa Tavares), aceitou entusiasmado a nomeação para administrador, junto dos americanos, do Iraque ocupado? Porque o Chirac, o Putin e o Schroeder se reconciliaram com o Blair? Porque, obedientes como os habitantes de Bagdad, aceitámos o recolher obrigatório com medo de sermos confundidos com os apoiantes de Saddam?
A recapitulação é fastidiosa mas não posso deixar de a fazer. Saddam era, como outros ditadores regionais, uma figura hedionda. Nós ( a esquerda em que me reconheço) sempre o dissemos e denunciámos. Mas com ou sem gaffe de Wolvowitz não foi esse o pretexto da invasão. Os americanos e os seus aliados invadiram o Iraque porque Saddam 1.detinha armas de agressão que ameaçavam o ocidente e 2.apoiava o terrorismo internacional. Até hoje nenhuma dessas duas afirmações foi confirmada. Pelo contrário, os cenários dos que se opuseram á guerra confirmam-se: os aliados dominam as riquezas petrolíferas da região, traçam a reconstrução do país priorizando o lucro das empresas participantes. O fundamentalismo islâmico não foi travado. O eclipse da ONU e de qualquer instancia reguladora onde os pequenos países tenham alguma influencia, acentuou-se.
Os defensores da guerra, esquecendo os argumentos que brandiram, legitimam agora a intervenção com o direito de ingerência. As tropas de países democráticos varreram uma ditadura sinistra e encontram-se empenhadas em possibilitar que essa sociedade se reorganize segundo regras que consideramos mais correctas, mais respeitadoras da dignidade dos habitantes.
Mas as questões que gostaria de ver debatidas são essas: Somos nós, os invasores aliados e os seus apoiantes, mais civilizados que os ocupados? Em que se estriba essa superioridade civilizacional? E a verificar-se, justifica a ingerencia armada?
Se

Mar me quer - o avô Celestiano  

"Quando sentiu que estava morrendo, meu avô Celestiano chamou a mulher e pediu-lhe:
-- - Deixa-me fitar teus olhos!
E ficou, embevecido, como se a sua alma fosse um barco deitado num mar que eram os olhos de sua amada.
-- - Tens frio? Perguntou ela vendo-o tremer.
-- - Não. És tu que estás a chorar.
-- - Chorar, eu? Começou foi a chover.
(Lembrança de minha avó sobre o último instante do velho Celestiano)"-
ibidem.-

segunda-feira, julho 7

Mar me quer - a felicidade 

"Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer."
Mar me quer, Mia Couto-
enviado por Armanda.-

Fahrenheit 451, ainda 

Hoje no Público um artigo de Pedro Ribeiro em Nova Iorque sobre como as pressões de grupos radicais levaram a que as escolas dos EUA impusessem autocensura nos manuais e exames. O artigo reporta-se a um livro da historiadora de educação Diane Ravitch: "The Language Police". Na lista de livros banidos lá está " Fahrenheit 451" de Ray Bradbury. Ao lado de Huckleberry Finn de Mark Twain, "Não matem a cotovia"; "Uma agulha no palheiro" de J.D.Salinger...Tudo livros que recomendo vivamente aos nossos jovens enquanto as nossas escolas não desatam a comportar-se de acordo com qualquer política de linguagem recomendável. Vá lá, pelo menos comprem-nos e armazenem-nos em lugar seguro. Já agora, na quarta feira, juntem a esta lista "O Estrangeiro " do Camus.

Álvaro de Campos 

No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...,
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.

Álvaro de Campos

A Natureza Boa 

A ideia de que a natureza é idí­lica e de que o Homem estragou tudo quando encerrou a sua absoluta comunhão com ela é a mais louca fantasia humana. Senão vejamos:
Bandos, cardumes, manadas e afins - Não são um grupo simpático de animais a tomar conta uns dos outros. O efeito de diluição e de confusão do predador é óbvio, mas alguém tem de ocupar as orlas, alguém tem de ser comido. A posição geográfica no grupo obedece à mais rigorosa hierarquia. Não acreditam que a decisão vai a votos, não?
Abelhas amigas - Não são altruí­stas puras nem vivem numa estrutura social perfeita, entregando as suas vidas de trabalho à comunidade em troca de nada. Se notarmos que, à excepção da raí­nha, toda a abelhinha está inibida de se reproduzir, é fácil deduzir que o investimento maternal da fêmea nas crias, comportamento que conhecemos bem, pode ser desviado para outros seres geneticamente próximos. Um grupo de mulheres estéreis, todas irmãs, não se saíria pior. Não acreditam que há estratégia melhor para cada uma delas, não?
O natural não é mais do que nós, cheio de cenários ditatoriais, tomadas de decisão brutais e uma imensa desigualdade na distribuição do bem individual. A capacidade do homem pensar a justiça, a bondade e a igualdade não foi em vão. Se estamos ainda longe do que queremos humano não é porque desaprendemos as regras do mundo, não é porque parámos de ser animais, mas precisamente porque o somos, todos, naturalmente mal e naturalmente bem. Ser melhor depende apenas do nosso neocortex, excepcionalmente humano, e não das lições toscamentes lidas no National Geographic. O bem e o mal estão unicamente em nós, Homens.

enviado por Sofia (Dom Jul 06, 8:45 PM)

domingo, julho 6

Saldos, boicote: que poder para o consumidor? 

Decididamente, uma noite temática a não perder no canal Arte, a partir das 19h45.

Reaberto o Museu de Bagdade 

Não vi a mulher- identificada como a directora do Museu, que no dia do saque chorava nas galerias em escombros.

Lido durante o fim de semana 

P Portas aos fiéis: "estivémos sempre do lado certo da história"(Prémio Schrodinger).
Jardim sobre a nomeação política dos novos responsáveis da RTP e RDP-Madeira: "...queremos passar ao ataque e pôr a circular as nossas idéias" (Prémio da Liberdade de Circulação).
Zézinha Nogueira Pinto : "O PSD avocou as concepcões do PP. As preocupações sociais do PP têm estado sempre presentes na agenda do Primeiro Ministro." (Prémio Misericórdia)

Dave Holland Big Band 

Não percam. Está anunciado para o Pátio das Escolas mas não paira sobre o evento a ameaça de nenhum doutoramento honoris causanem consta que será abrilhantado pela GNR a cavalo. Os dois últimos trabalhos da big band de Dave Holland na ECM (Not for Nothing e...) são a certeza de uma noite memorável.

Truffaut 

Que boa a evocação do Fahrenheit 451, e ainda por cima em Genève, terra de exilados fugindo de ditaduras. No Portugal de finais de 60 o filme tinha uma carga explosiva e uma leitura de resistência óbvia. Os livros escondidos eram muitos. A interpretação da Julie Christie e do Oskar ...era poderosa.
Mas o Truffaut de que gosto mais é o do "Homem que gostava de mulheres"

Goblin market 

Na Mata do Jardim Botânico, habitualmente encerrada ao público (e completamente ao abandono). Peça baseada num longo poema de Christina Rossetti, inglesa de meados do século 19. Tema : a sexualidade reprimida das jovens de então.
Excelente o espaço cénico e o aproveitamento do mesmo(António Barros). Realce para a mãe d'àgua, o canavial que permite a proximação quase invisível dos goblins e a ovelha Mondego, activíssima, escondendo algumas debilidades da banda sonora.
A marcação do tempo pareceu-me deficiente, com pouco ritmo. Os goblins não eram terríveis, nem as meninas me pareceram suficientemente erotizadas para o castigo que se adivinhava. Digo adivinhava, porque, quando os menores de 12 anos presentes ameaçavam montar um espectáculo paralelo, uma das actrizes fez uma luxação do ombro esquerdo e o espectáculo foi interrompido e depois cancelado.

Lou Reed 

Eu estava à frente. Fila 25 da nomenklatura (espero subir umas filas até ao fim da Capital da Cultura, de que este era um by-product). Gostei muito. Não foi revivalista. Cada um dos temas antigos remetia para um recente de um modo nem sempre imediato mas que me pareceu resultar. E o Lou Reed estava bom, valendo por ele próprio e não pela memória. Atrás e dos lados, estavam amigos e amigas minhas. Quando podia olhava para eles (elas). Estavam lindas, luminosas. Quando ribombavam aquelas tempestades electrónicas e a máquina do rock sobe pelo peito acima, quando miss Jane arrancou aquele solo, quando disse tão bem The Raven (já agora experimentem decorá-lo. Há uma versão portuguesa do Pessoa: Começa assim :"Numa meia noite agreste em que lia, lento e triste vagos, curiosos tomos de ciencias ancestrais e já quase adormecia, ouvi o que parecia o som de alguém que batia, levemente batia a meus umbrais". Era o corvo, que haveria de dizer "Nunca mais!" Gótico! arrebatador! -prometo enviar a quem estiver interessado.).
Também gostei que ele tivesse pedido ao Antony para, no encore, cantar "Candy says". Comovente, a voz de contra tenor e o ar desajeitado, quase "crippled". Tinha de haver aquele javardo aos berros para nos lembrar onde estávamos.

Fahrenheit 451 

o João está em Genève certamente preso a um editor-de-texto de linha e a um teclado universal (actualmente chamado teclado global)... não tem acentos nem ponto final, por isso lhe pego na mão.

Fahrenheit 451, realizado por François Truffaut já no longínquo ano de 1966 é como dizes um filme belo e poético onde o corpo de bombeiros, numa sociedade perfeita e sem incêndios, esquecidos da sua tarefa primordial, respondem a denúncias e queimam bibliotecas e esconderijos. É também um filme de época. Nas décadas de 60 e 70 aparecem com alguma frequência estas visões apocalípticas do mundo - agora um pouco esquecidas. Na altura aparentavam ser pensadas pela primeira vez e assistindo à brusca aceleração fulminante da sociedade os receios de que não se pudesse prever nem controlar qual seria o seu destino germinavam - hoje há uma multidão e uma variedade maior de sentimentos em relação ao futuro, não há um receio generalizado que possa resultar belo e poético num filme que venda, passada a aceleração inicial todos incorporámos a velocidade vertiginosa e não a sentimos.

Está a ser filmado um remake -previsto para 2004- que eu aguardo sem entusiasmo, como de resto a quase todos os remakes. Na era da fast-food, prêt-a-porter, da globalização receio que o filme não seja mais do que Matrixizado e estilizado onde os efeitos especiais e a imagem valem mais do que a história. Numa visão apocalíptica adaptada à tecnologia actual será necessário aumentar a temperatura para derreter também os aúdios, LPs, CDs e DVDs mas a temperatura para fundir a nossa memória é muito mais elevada. Lembrem-se os senhores que fabricam armas de destruição massiva de não atingirem essa temperatura e as instituições internacionais de controlo de declarar, qualquer arma mais letal do que o papel, proibida. Não será assim, neste processo mais uma história será branqueada da nossa memória, atulhada de imagens.

João, espero o teu regresso para te oferecer um teclado português portátil.

Memorandum 

Vim agora do concerto do Lou Reed e isto tem de ser escrito a quente, enquanto as notas apanhadas na rede neuronal saltam fresquinhas. O concerto não foi inesquecível, mas eu tenho má memória. Retenho alguns marcos.

Estava na bancada do fundo. Dada a distância, quando dois músicos passavam perto um do outro no palco eu só via um.

Sweet Jane. Lou Reed apresenta os músicos: um excelente cantor, um baixo, uma violoncelista, um guitarrista com cauda de piano.

Small Town. "When you're growing up in a small town / You say no one famous ever came from here". Coimbra is a small town? Sim, não. Claro que sim. "There's only one good use for a small town / You hate it and you know you'll have to leave".

Vanishing act. A música não desapareceu. Pedaços de silêncio apareceram.

Venus in Furs. Magistral solo de violoncelo.

Canção do Fernando. Inenarrável.

Aparato cénico: jardim da sereia, simplesmente. Um "master" daqueles movimentos orientais de que nunca me hei-de lembrar do nome. Ai a minha memória. Sublime, a vermelha combinação movimento/som. Simples, como a música.

Do princípio ao fim, surpresa, exploração, novidade. Com a sua idade, Lou Reed faz-nos sentir antiquados, preconceituosos. Aquilo é música? É rock?

Reacção aparentemente fria do público, sem pulos. Contudo, 2 encores e 2 horas e meia de concerto. Nos encores, fui para perto do palco. Perspectiva completamente diferente. 3 mil perspectivas diferentes.

O concerto não foi de má memória, a minha é que é. Daí este memorandum.

Lou Reed estava bem vivo quando Schrödinger abriu a sua caixa.

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