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sábado, novembro 29

Raridades do baú do tempo: a incerteza de estar premiado 

Naquele dia especial a lotaria não se realizou...

sexta-feira, novembro 28

Toponímia Jesuíta em Coimbra 

Apóstolos - assim eram designados os primeiros jesuítas em Portugal. A Couraça dos Apóstolos, na Alta de Coimbra, fica ao cimo da Rua Padre António Vieira (em tempos mais antigos denominada Ladeira dos Jesuítas).

A arte de bem argumentar 

"Give me the facts, Ashley, and I will twist them the way I want to suit my argument."
Winston Churchill, para o seu assistente de investigação

Ode 

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.



Ricardo Reis, 14-2-1933



quinta-feira, novembro 27

daniel filipe 

daniel damásio ascensão filipe, poeta e jornalista cabo-verdiano, nasceu em 1925, na ilha da boavista, e morreu em 1964, em lisboa_ foi co-director dos cadernos de poesia notícias do bloqueio, publicados no porto entre 1957 e 1962, e colaborou em diversas publicações, como o diabo, seara nova e távola redonda e realizou, na emissora nacional, o programa literário voz do império_ na poesia destacou-se pela
combatividade revolucionária, aliada a uma fina sensibilidade lírica_ o amor e a solidão, o indivíduo e a cidade recortam-se nos seus versos com acentos originais, fluentes e por vezes inesquecíveis_ como outros opositores do regime salazarista, foi perseguido, preso e torturado pela PIDE_

trespasse

Quem tiver sonhos, guarde-os bem fechados
- com naftalina - num baú inútil.
Por mim abdico desses vãos cuidados.
Deixai-me ser liricamente fútil!

Estou resolvido. Vou abrir falência.
(Bandeira rubra desfraldada ao vento:
"Hoje, leilão!") Liquida-se a existência
- por retirada para o esquecimento ...

daniel filipe

quarta-feira, novembro 26

guerra da fome 

a guerra à fome está a ser perdida! é este o cabeçalho de muitas notícias de hoje_ mas parece que poucas pessoas estão preocupadas com o enorme preço em vidas humanas que a má distribuição de recursos origina_ os números são astronómicos: cerca de 842 milhões de pessoas passam fome ou sofrem de malnutrição no mundo! e o número está a aumentar, com 5 milhões de novos casos cada ano_ no início dos anos 90 a situação parecia estar a melhorar, mas desde aí não parou de piorar_ os países que conseguiram contrariar esta tendência,
como o brasil e a china, conseguiram-no graças a um crescimento económico mais
rápido, uma maior expansão do sector agrícola (o investimento na agricultura é uma
condição prévia para o crescimento do rendimento dos pobres e da produção de alimentos), uma menor taxa de crescimento da população, taxas mais baixas de infecção por HIV (a sida matou 25 milhões de pessoas nos países pobres) e menos casos de catástrofes naturais (secas, inundações, etc.)_ a situação torna-se ainda mais catastrófica pela injustiça (e ganância) do comércio mundial_ nos produtos agrícolas mais de metade do preço final vai para os intermediários e não para o produtor_ e os preços crescem mais rapidamente nos produtos que os países pobres importam do que nos produtos que exportam_ e o ocidente gasta 30 vezes mais em subsídios aos seus agricultores do que em ajuda externa (os estados unidos gastam 3,9 mil milhões de dólares por ano em subsídios aos seus 25000 produtores de algodão, mais do que o todo o pib do burkina faso, onde 2 milhões de pessoas vivem do cultivo do algodão)_ a europa é o segundo maior exportador de açúcar do mundo, apesar de o custo da produção de açúcar na união europeia ser pelo menos o dobro do que no terceiro mundo_ os exemplos abundam_
nós temos de destruir alimentos para controlar o seu preço no mercado e uma parte importante da população mundial passa fome_ se isto não é injustiça, o que é injustiça? a fome é a verdadeira arma de destruição em massa...


Deus e a Ciência: reflexões pessoais 

A ciência tem substituído Deus, mas Este parece continuar presente na nossa perplexidade. Na Idade Média dizia-se que os desígnios de Deus estavam para lá da nossa compreensão. Agora dizemos, de forma para mim análoga, que o entendimento do universo está para lá da nossa experiência quotidiana. Na Idade Média concebia-se uma calota com astros colados. Séculos antes, Atlas segurava o céu. Agora, descobrimos que é a gravidade que nos segura e temos tecnologia que nos permite analisar as galáxias mais remotas. Mas quem segura a gravidade? Por que é ela assim?

Deus não é necessário para as nossas equações e teorias, é certo. Mas estas só nos parecem dar o como e parecem incapazes de nos dar o porquê. Acreditar que a ciência acabará por explicar tudo é também uma forma de Fé como a religião do ateu cujo credo é a inexistência de Deus. E assim entramos no domínio da retórica e da metafísica, no qual as figuras de estilo, as metáforas, os paradoxos, as perguntas que não conseguimos formular para as respostas que não temos, são parte importante da nossa visão do mundo.

Deus está para além da ciência, a Fé não é redutível a experiências às quais se possa aplicar o método científico. Porque a ciência é um método de análise, interpretação e modificação da realidade que tem como base a experiência. O magnífico início do capítulo 11 da carta aos Hebreu S. Paulo parece dizer tudo: "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem."

Infelizmente, tanto com a Ciência como com a Fé, as angústias mais profundas do Homem continuam sem solução satisfatória. Provavelmente a angústia e a insatisfação são intrínsecas à nossa natureza. Mas isto é, claro, retórica pessimista.

terça-feira, novembro 25

A raínha dos mamíferos e o primo do nariz estrelado 

O que motivou este post e uma série de espantos que o antecederam foi um programa de David Attenborough, daqueles sobre a vida selvagem que eu teimo em perder, apesar de achar que são possivelmente a melhor razão para se ter uma televisão. Naquele dia consegui ver uma parte, sobre os ratos-toupeiros nús ("naked mole rats"). Nunca tinha ouvido falar deles, o que é notável pois são o único mamífero eusocial conhecido, pelo que li na net. A eusocialidade observa-se em insectos como as formigas, abelhas, vespas ou térmitas e, fora dos insectos, apenas nestes ratos e numa espécie de camarão. Os ratos-toupeiros nús formam colónias com uma única "raínha" fértil, ajudada por "obreiras" e "soldados". As outras fêmeas são diferentes da raínha e estão inibidas de procriar, mas podem substituí-la após a sua morte. Todas têm uns dentes lindos.

Através do Google, dei com um primo igualmente singular: o "star-nosed mole". O nome diz tudo e as fotografias dispensam comentários, cliquem nelas se quiserem saber mais. As pesquisas levaram-me também ao incontornável Gene Egoísta que me tem andado a perseguir... agora todos os caminhos vão dar a Dawkins?!

A invenção do amor 

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e
detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV denúncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura as dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absoIutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde: quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos Água simples correndo A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boites com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa,
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza liquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra afogar a distância
no corpo sem mistério, da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em circulos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro

É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não sem preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resoIvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão,
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu

Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas

Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)

Daniel Filipe

terei medo do escuro 

Sou acordado por um desperta-rádio, quando saio de casa não o desligo, contemporizo-o. No carro o rádio liga com o motor e esqueci qual é o botão fim. Não acho de mais música e ler, música e escrever, música e adormecer. Na altura dos discos pedidos sei que cada música tem uma cor na palete das emoções. As caixas dos CDs têm espaço para um mundo de coisas, tenho-as com um cheiro dentro, um filme, um amigo, uma dança —a menina dança—, um beijo pequeno que apanhou ao acaso uma testa, algumas têm todas essas coisas ao mesmo tempo, outras estão vazias e esperam ou não. Nalgumas caixinhas, coloridas, cabe um castelo inteiro, um castelo fantasma que aparece e desaparece, do mapa para a geometria do terreno. Noutras cabe um mundo só imaginado percorrido em liberdade, corrido em liberdade fotografado em tons de cinzento negativo e que nunca, nunca se podem impressionar em prova de contacto. Será a isto que se chama banda sonora. Terei medo do escuro.

sexta-feira, novembro 21

A Biblioteca de Vieira da Silva 


Um dos mais belos testamentos 

TESTAMENT

Je lègue à mes amis

un bleu céruléum pour voler haut
un bleu de cobalt pour le bonheur
un bleu d' outremer pour stimuler l' esprit
un vermillon pour faire circuler le sang allègrement
un vert mousse pour apaiser les nerfs
un jaune d'or: richesse
un violet de cobalt pour la rêverie
une garance qui fait entendre le violoncelle
un jaune barite: science-fiction, brillance, éclat
un ocre jaune pour accepter la terre
un vert Véronèse pour la mémoire du printemps
un indigo pour pouvoir accorder l' esprit à l'orage
un orange pour exercer la vue d' un citronnier au loin
un jaune citron pour la grâce
un blanc pur: pureté
terre de Sienne naturelle: la transmutation de l'or
un noir somptueux pour voir Titien
une terre d' ombre naturelle pour mieux accepter la mélancolie noire
une terre de Sienne brúlée pour le sentiment de durée.

Maria Helena Vieira da Silva

quinta-feira, novembro 20

Os cadeados 

Quebro este meu silêncio para opinar sobre a greve e os cadeados. Às vezes é tal o consenso de opiniões que quase me assusto de pensar diferentemente.
As coisas são como são e faz parte do ser estudante ser excessivo e infringir as regras e cabe à sociedade e às instituições chamá-los à ordem.
E se não se é radical e contra a ordem vigente, aos 18, 20 anos quando é que se vai ser?
Tudo isto independentemente de poder não concordar com os pontos de vista dos estudantes, de seguramente não concordar com os cadeados. Mas devo dizer que tenho muito mais respeito por esses alunos que dão o corpo, que vão à luta do que por aqueles que ficam em casa ou aproveitam para fazer fins de semana prolongados. Além do mais, tenho a convicção de que são aqueles, os que vão á luta, que melhor futuro auguram para o nosso país.

energia negra 

não estou a falar nem da guerra das estrelas nem do eixo do mal! apenas da descoberta de que existe uma qualquer forma de energia cósmica que se opõe à atracção da matéria e que causa a aceleração da expansão do universo_ esta descoberta resulta de estudos de supernovas de tipo Ia_ estas supernovas, estrelas em explosão tão brilhantes como galáxias inteiras e que podem ser observadas a uma distância de milhares de milhões de anos-luz, funcionam como fontes de luz padrão (a luz total emitida é razoavelmente constante)_ a velocidade de uma fonte de luz pode ser estimada a partir do desvio da luz para o vermelho (semelhante ao efeito doppler no som, o aumento do comprimento de onda do som quando a fonte sonora se afasta do observador)_ a distância a que está um objecto luminoso, de intensidade conhecida, pode ser determinada a partir da sua intensidade aparente (quanto mais afastado mais débil a sua luminosidade aparente)_ combinando estas duas informações pode determinar-se qual a taxa de expansão do universo, em particular olhando para supernovas muito distantes_
pensava-se que, em virtude do efeito da atracção gravitacional universal, a taxa de expansão estaria a descrescer_ os resultados obtidos pelo supernova cosmology project foram o inverso: a taxa de expansão do universo está a aumentar! as supernovas de tipo Ia são fenómenos raros numa galáxia e relativamente rápidos (emitem a maior parte da sua energia em poucas semanas, o que permite distingui-los de outros fenómenos)_ mas observando uma parte do céu com algumas semanas de intervalo podem ser descobertos novos pontos brilhantes que correspondem supernovas_
uma explicação para estas observações é a existência de uma nova forma de energia, designada por negra devido à nossa completa ignorância acerca da sua origem, que contraria os efeitos da atracção gravítica_ esta descoberta foi confirmada por outras observações, como o facto de a radiação cósmica de fundo (radiação electromagnética que preenche todo o espaço)_ esta radiação é ligeiramente mais "quente" nas regiões onde existem mais galáxias, e uma possível explicação implica a existência de energia negra (um fotão quando encontra a curvatura do espaço criada por uma massa é acelerado, e quando sai dessa região perde a energia que ganhou, mas a existência da energia negra, sendo gravitacionalmente repulsiva, faz com que a energia perdida seja ligeiramente inferior à energia ganha, o que leva ao "aquecimento" da radiação de fundo nessas regiões)_ existem muitas hipóteses quanto à origem da energia negra, desde um campo cósmico associado à inflação (outro fenómeno da expansão), a um campo de baixa energia designado por "quintessência" e a constante cosmológica (energia do vácuo do espaço vazio)_ as conclusões actuais são que o universo é constituído principalmente por matéria negra e energia negra_ e nós não sabemos o que é cada uma delas!
a densidade de massa do universo é estimada a partir da razão entre a luz visível e a massa em grandes sistemas, como clusters de galáxias, e de várias outras formas_ após várias décadas de observação, os dados indicam que a densidade de massa é baixa e que a maior parte da matéria no universo é negra (não emite luz mas tem massa)_ a curvatura do universo é estimada a partir de medidas na anisotropia (flutuações de temperatura) da radiação cósmica de fundo, "restos" do big bang_ apesar das grandes incertezas, os resultados actuais sugerem um universo "plano" (um balanço ténue entre o recolapso do universo, o big crunch, e a expansão para sempre)_ a existência da energia negra pode levar a que mesmo um universo "plano" sofra uma expansão eterna_
toda a cosmologia está ainda numa fase muito inicial (e logo muito excitante), existem muitas perguntas (possivelmente as mais importantes da humanidade como espécie inteligente) por responder, e surgem novos dados todos os dias_ algumas das perguntas poderão ser: será que o universo dura para sempre? terá o universo um tamanho infinito? o que é que constitui o universo? que energia negra acelera a expansão do universo? o que constitui a matéria negra?


timor gap 

estranhamente, ou talvez não, a fronteira marítima entre timor leste e a austrália ainda não está definitivamente decidida pois a austrália recusa iniciar as negociações! estranho, não é? pareceria que seria muito fácil chegar a um acordo o qual resultaria da aplicação simples das normas do direito internacional: quando as costas de dois estados distam de menos de 400 milhas marítimas a fronteira entre eles é colocada exactamente a meio! simples, não é? mas a austrália prefere a fronteira provisória que negociou com a indonésia, possivelmente em troca do apoio à ocupação de timor, em que a linha de fronteira marítima está mais próxima de timor e logo coloca a maior parte dos campos petrolíferos do timor gap no território australiano_ isto implica que cerca de 30 mil milhões de dólares de receitas provenientes da exploração desses campos nas próximas décadas (uma verba muito importante para um país muito pobre e quase sem receitas, para aí umas 50 vezes o PIB anual, que depende quase só da ajuda internacional) fiquem nos cofres australianos em vez de ajudaram a reconstrução e o desenvolvimento da mais pobre nação do sudoeste asiático_ e ninguém diz nada, ninguém protesta? então qual o incentivo para a austrália cumprir o direito internacional? após a luta da independência timor enfrenta agora a dura luta do desenvolvimento_ mas com vizinhos assim vai ser bem difícil!

Impressão Digital 

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
nao vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!

Inutil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D.Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!

António Gedeão, in "Movimento Perpétuo", 1956




quarta-feira, novembro 19

Força forte 

Há quem coloque em causa esta força tal como a conhecemos.

Força fraca 


Fraca demonstração de força, a dos estudantes, apesar das aparências...

segunda-feira, novembro 17

haiti 

(Caetano Veloso . Gilberto Gil, 1994)

Quando voce for convidado pro subir no adro
Da Fundação Casa de Jorge Amado
Para ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
dando porrada na nuca de malandros pretos
de ladrões mulatos e outros quase brancos
tratados como pretos
só para mostrar aos outros quase pretos
(e são quase todos pretos)
e aos quase brancos pobres como pretos
como é que pretos, pobres e mulatos
e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
e não importa se os olhos do mundo inteiro
possam estar por um momento voltados para o largo
onde os escravos eram castigados
e hoje um batuque um batuque
com a pureza de meninos uniformizados da escola secundária
em dia de parada
e a grandeza épica de um povo em formação
nos atrai, nos deslumbra e estimula
não importa nada: nem o traço do sobrado
nem a lente do Fantástico, nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
se você for ver a festa do Pelo, e se vocé não for
Pense no Haiti, Reze pelo Haiti
o Haiti é aqui - o Haiti não é aqui

E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer qualquer
plano de educação que pareça fácil
que pareça fácil e rápido
e vá representar uma ameaça de democratização
do ensino de primeiro grau
e se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
e o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
e nenhum no marginal
e se, ao furar o sinal, o velho sinal
Vermelho habitual,
notar um homem mijando na esquina da rua sobre um
saco brilhante de lixo do Leblon
e quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefensos, mas presos são quase todos pretos
ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
e pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
e quando você for dar uma volta no caribe
e quando for trepar sem camisinha
e apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, Reze pelo Haiti
o Haiti é aqui - o Haiti não é aqui.

domingo, novembro 16

Eliminar o sofrimento e morte por cancro até 2015 - II 

Da entrevista a Andrew C. von Eschenbach:

Could we completely eliminate cancer by 2015?

- Given the complexity of the myriad diseases that we call cancer, it's unlikely that we will progress that far, that fast. But the point I wish to make is that a cure isn't necessary to eliminate the worst aspects of the cancer experience -- suffering and premature death. I do believe that by 2015, we can both eliminate some cancers as well as bring other cancers under control as chronic, manageable diseases, much like people today live with diabetes and heart disease. And one day, we may even eliminate cancer, but not in the foreseeable future. What is foreseeable is to expand our ability to preempt the suffering and death caused by cancer. That's why we've issued this challenge goal -- to focus ourselves on reducing the burden of cancer.

Eliminar o sofrimento e morte por cancro até 2015 

Não, não é um sonho impossí­vel, não é uma ideia tresloucada de um lunático qualquer. É uma meta que se afigura realizável à  luz do melhor conhecimento de que dispomos. Não é uma promessa, é um desafio ambicioso, mas pensa-se que será possí­vel concretizá-lo se a sociedade se empenhar. A frase que se segue é a que mais me alegrou nos últimos tempos, sobretudo porque sei que não foi dita por uma pessoa qualquer:

"as director of the National Cancer Institute, I have issued a challenge: to eliminate the suffering and death from cancer, and to do so by 2015."
Andrew C. von Eschenbach

[Mais informação: 1, 2 (entrevista)]

Ensopado de Coimbra 


sábado, novembro 15

Déjà Blog 

Ó PC, então agora lemos o mesmo e blogamos sobre o mesmo ao mesmo tempo?! Juro que não tinha visto o teu post (ver os dois abaixo)!

Portugal, um país para conhecedores 

Abençoada Klepsydra! Tem uma fotografia de um erro de sinalização do IP5 que é um verdadeiro clássico!

Ouvi falar pela primeira vez dele ainda durante os anos 80: alguém que passava por lá frequentemente, dizia que na IP5, perto de Celorico, havia a indicação de que se podia ir para Coimbra virando à direita (indo dar à estrada da Beira e saindo da IP5), mas faltava a seta a indicar que também se podia ir para Coimbra continuando pela IP5 (um caminho muitíssimo melhor).

Essa informação foi-me muito útil numa altura em que eu entrava frequentemente em Portugal por Vilar Formoso: se não ligasse à sinalização, ia pela IP5 e tinha uma condução mais segura e rápida (apesar de ser a estrada que é). Lembro-me de, por volta de 1998, ter feito esse percurso com outra pessoa que ia a guiar e de me ter esquecido de a avisar do "truque": obviamente, ela seguiu a sinalização e lá nos encontrámos na pavorosa estrada da Beira (a vista é bonita, mas a estrada parece não ter mudado desde os anos 60). Acabámos por fazer o caminho por essa estrada e jurámos para nunca mais.

Graças à Klepsydra, fico a saber que o problema de sinalização subsiste há cerca de uma década e meia! Já merecia uma lápide comemorativa, tipo McDonalds: "Over 1000000 tourists fooled"! E vai ser tão giro agora com o Euro, tantos turistas perdidos nas montanhas, a sentir na pele o país moderno que querem que pensem que somos!

"Portugal Único 3: até Coimbra pelo bilhar grande" 

mapa michelinRefere-se o Rui ao estado caótico da sinalização das estradas. Ali está, quem vem de Vilar-Formoso para Coimbra é convidado a seguir pela estrada da beira, será talvez porque é mais segura do que a IP5. Tragicamente até é verdade, mas apenas porque o volume de tráfego é muito menor — mas a alguém passa pela cabeça ligar às placas de trânsito?
Quem quiser fazer uma viagem Salamanca-Coimbra pode perguntar ao vetusto clube automóvel português qual o melhor trajecto que, de modo coerente, indicará o caminho da nacional 17 —estrada da beira— ou então pode confiar na sabedoria da michelin que sabe que se deve seguir pela IP5.

a sério 

nunca pensei dizer isto mas o continente está cheio de coisas boas, tal como a sic, a tvi, o público, boas e humanas, humanamente boas. Vejam-se os confortáveis sofás em poiso alcatifado, no primeiro andar. Têm vista para três gaiolas e para uma vereda de andantes.

sexta-feira, novembro 14

Os riscos desnecessários 

Desnecessários? Não, eles são necessários! Os riscos das estradas, quero eu dizer. Por causa da falta deles passei hoje riscos desnecessários. De noite, com nevoeiro, sem pintura e sem outros carros, como é que encontramos a estrada onde supostamente nos encontramos, mesmo andando a 10 à hora?

Dica para pintores de estradas 

Pintem-nas.

O poema do dia 

Fujo da palvra sem timbre
Da expressão sem tom,
Da língua turva, do enunciado impuro,
Onde as arcadas do violoncelo choram.
Exaustos os rapsódicos rios de leones,
Fundo o murmúrio fluvial da estrofe,
Ouvindo interiormente,
Com as palpebras cerradas.


M. S. Lourenço in Poemário Assírio Alvim 2003

a guerra civil nas estradas 

Paz na estrada. Novo blog paz na estrada da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados ACA-M.

no sentido da rotação 

A primeira vez ela estava de costas em bicos de pés a fechar uma janela e eu sem ter mais nada para onde olhar. Ou, então, esquecias-te de olhar para onde os meus olhos olhavam e fixavas só os meus olhos, ou esquecias de ouvir as minhas palavras e vias apenas os meus lábios, ou, então, esquecias de ouvir a música e só dançávamos, sem mais nada para sentir. Cheguei a casa à hora combinada, toquei, ouvi passos, a porta abriu-se mas não vi ninguém. Entrei, a luz era fraca e tropecei no tapete, equilibrei-me no meio da sala e ali fiquei imóvel com medo de mais algum tapete que me atraiçoasse. Havia música e um cheiro quente e doce que não consegui identificar e que hoje recordo. Apareceste projectando sombras curvas nos meus olhos assustados. Entrava um resto de luz pelas persianas mal fechadas filtrando cumplicidades, a música abrandou e tornou-se mais grave, o ponteiro dos segundos hesitou no passo, hesitou no sentido da rotação. Tratámos então do algodão dos tecidos, sem mais nada para fazer.

quinta-feira, novembro 13

O assombroso campo das possibilidades 

Quando folheei a revista IEEE Spectrum que hoje me chegou às mãos, não estava à espera de ler uma frase como esta: "Evolution directed in the laboratory is leading to virus that adhere to semiconductors and then assemble nanoelectronic components". O artigo começa da seguinte forma: "By the time you read this, there's a good chance a virus has built a transistor".

vietname revisitado 

"It took two years for US deaths to reach 324 in Vietnam. It passed that figure in seven months in Iraq."
in

http://argument.independent.co.uk/commentators/story.jsp?story=463172


a história não se repete nunca exactamente, mas pode ter semelhanças preocupantes...

george dubbya 

http://news.independent.co.uk/world/americas/story.jsp?story=463147

artigo interessante sobre o "homem mais poderoso do mundo"_ alguém tem "dubias"? é muito fácil criticá-lo, entende-lo é muito mais difícil...

alguns extractos:

"George W Bush lives at the intersection of faith and inexperience. This is not a
reassuring address, especially in a time of trouble."
"you know nothing, but understand everything"

Bush telegraph: selected presidential facts

In May 2001, Bush's government gave $43m to the Taliban.
Bush has never attended a funeral or memorial service for a soldier killed in Iraq.
In August this year, Bush took the second-longest holiday ever by a US president: 28 days.
Bush's 16-member cabinet is the wealthiest in US history, with an average fortune of $10.9m each.
As governor of Texas, Bush executed 152 prisoners.
Sixty-one people who raised $100,000 for Bush's 2000 election campaign have since been given government posts.
Nine members of Bush's Defense Policy Board sit on the board of defence contractors or are advisers.
Bush has been arrested three times: for stealing a Christmas wreath from a hotel; for ripping down the Princeton goal posts after a Princeton-Yale game; and for drunk driving.
Bush infuriated the Russian media by spitting a wad of chewing gum into his hand before signing 2002's historic Treaty of Moscow with Vladimir Putin.
While appearing on the David Letterman show in 2000, Bush was caught surreptitiously cleaning his glasses on the jacket of the programme's executive producer, Maria Pope.

quarta-feira, novembro 12

Na Alta de Coimbra, em frente à Porta Especiosa 

O Luis da Natureza do Mal fez-nos um convite para fazer um roteiro das ruas da Alta e já se lançou na aventura. Eu, que quase nunca vou por onde me mandam ir, comecei um passeio de memória. Mas fiquei parado diante desta porta para o passado e para o presente. Encerrada, entaipada e ligada.

A última vez que a vi despida dos panejamentos e madeiras que a cobrem, já lá vão alguns anos, estava vestida de pombas e plantas selvagens, rodeada de uma caótica corte motorizada. Toquei na pedra húmida que se solta com o contacto dos dedos e tirei fotografias. Para não esquecer.

A suavidade da pedra de Ançã parece querer a sua alma rupestre de volta. Quer tornar-se pó e humidade. Parece exigir que se cumpra um moderno prazo de validade. Com o auxílio dos carros que continuam a ocupar a Sé-Velha, das pombas e da vegetação, mas também das pessoas que não a vêem esboroar-se, de forma envergonhada e silenciosa, debaixo dos panejamentos e dos taipais.

João de Ruão não se importará, pois já teve quase cinco séculos de glória. Pedreiros como Álvaro Gois e Rui Mamede também não, pois têm a glória nas mãos calejadas.

Tarde. Muito tarde. Estão agora a estudar, medir, projectar, lançar concursos. Mas o tempo não pára e quando retirarem os panejamentos e as ligaduras provavelmente só restará uma múmia ressequida. Talvez ainda e sempre rodeada da corte motorizada.

Encadeados 

Talvez o presidente da AAC quisesse confrontos com a polícia para ficar na fotografia um pouco como Daniel Cohn-Bendit no Maio de 68: daria uma boa imagem para o jornal das 8. No entanto, se tal tivesse acontecido, Victor Hugo Salgado não seria a vítima mas sim o polícia que impede, que usa a força, que prende, que acorrenta. O público, que olha para tudo isto com um misto de espanto e de gozo, seria Cohn-Bendit.

terça-feira, novembro 11

O sono separador 

Sei de uma senhora muito caridosa que gosta muito de gatos. Gosta tanto que, apesar deles andarem em liberdade pelos quintais das redondezas e de serem bastante independentes, a senhora praticamente não vai de férias com receio de que morram à fome. A gataria vadia sabe que a horas certas têm uma refeição esmerada à sua espera e aparece às catadupas vindos de todos os lados. Não é para menos: carne e peixe comprado e preparado expressamente para eles, nada de enlatados, tudo fresquinho.

Mas tudo tem um fim. Ultimamente já havia gatos a mais e, com a idade também a pesar, a senhora tinha de cortar nas doses. E assim, ajudada por um familiar veterinário, preparou o plano: deita-se um soporífero na comida, eles dormem, levam-se para longe e resolve-se o problema.

Dito e feito. Repasto preparado e adocicado com o calmante, a gataria amontoou-se como de costume no quintal, comeram à fartazana e pouco depois caíram para o lado. "Zzzzzzzzzzzzzzzzz"... (ou seria antes "ron-ron-ron-ron"?) Quem chegasse de fora teria uma espantosa visão: vinte e tal gatos de Schrödinger esparramados no chão, talvez mortos, talvez vivos.

Mas não. No último instante, como nos filmes, a senhora não teve coragem, não quis que os levassem. E assim, quando os gatos acordaram, foram à sua vida como se nada tivesse acontecido, atordoados à procura de tordos. A viagem para o outro lugar, ficou para outra vez, talvez para outra vida de gato.

Uma segunda tentativa de separação está já em preparação. I’ll keep you posted...

segunda-feira, novembro 10

naipaul 

terminei de ler o "beyond belif - an islamic excursion among the converted people" do v.s.naipaul_ é um livro razoavelmente interessante de viagens do naipaul entre os "povos convertidos", os povos não árabes convertidos ao islão_ ele fala com pessoas mais ou menos vulgares de quatro desses países: indonésia, irão, paquistão e malásia_ fala da situação política, económica, educativa, social e, particularmente, religiosa, nesses países_ conclui que o islão tenta apagar a história local, eliminando o sentido de identidade desses povos e alienando as suas populações, o que na minha opinião é no mínimo controverso_ o que se torna importante para os convertidos é a história do islão, a história da conquista árabe e da expansão da fé, e o facto dos lugares santos estarem nos países árabes_

reli/revi igualmente um livro fotografia excelente relacionado com o anterior: "Allah O Akbar - viagem ao islão militante" do abbas, fotógrafo iraniano da agência magnum_ este sim, um livro excelente, tanto na qualidade das imagens como no valor da reportagem sobre os muçulmanos no mundo, desde a indonésia aos estados unidos, da bósnia ao mali, de frança ao irão_

campos de refugiados 

um projecto interessante para uma equipa de arquitectura: desenhar um campo de refugiados! o que se pretende é erguer uma estrutura funcional leve, barata, flexível e fácil de montar, que possa satisfazer, dentro do possível, as necessidades básicas de uma população deslocada por conflitos ou catástrofes naturais_ é um exercício extremamente complexo mas fascinante, dadas as diferentes situações geográficas, climatéricas, sociais e culturais que se podem encontrar_ existe todo um conjunto de necessidades básicas que têm de ser cumpridas (alimentação, alojamento, saúde, segurança) e que podem ser divididas por unidades independentes_

israel & demografia 

enquanto a violência continua a devastar as vidas dos que vivem na "terra santa-terra prometida", o tempo parece correr contra os querem negar o direito do povo palestiniano a uma pátria_ a situação de ocupação actual é completamnete insustentável, quanto mais não seja pelo enorme preço em vidas e insegurança que todos os dias se tem de pagar_ só existem duas saídas para uma solução definitiva: ou a criação de um estado palestiniano independente ou a anexação pura e simples dos territórios ocupados e a sua incorporação no estado de israel_ a primeira solução parece longínqua e a segunda não aceitável_ a segunda hipótese, sobre a qual quero agora especular, cumpriria o sonho do "grande israel" da direita religiosa mais radical, ao incluir no estado de israel todos os lugares santos e históricos judaicos_ mas seria, simultaneamente, o fim de israel como estado judaico, pois a demografia diz que a maioria dos habitantes do "grande israel" dentro em pouco seria árabe (isto se não existisse o retorno dos milhões de palestinianos refugiados nos estados árabes vizinhos) se não houvesse um improvável influxo maciço de novos emigrantes judeus_ aplicando o princípio de uma pessoa-um voto a todos os habitantes, brevemente poderíamos assistir ao estado de israel governado pela olp, tendo como presidente o resistente-terrorista arafat!

para mim é um pouco estranho que o povo que possivelmente mais sofreu de intolerância ao longo da sua história, o povo judaico, pratique, logo que tem oportunidade disso, a intolerância em relação ao povo palestiniano_ pareceria que devia ser o contrário_ mas dizem as estatísticas que os pais que abusam, fisica e sexualmente, de crianças, foram muitas vezes eles próprios vítimas desses mesmos abusos...

domingo, novembro 9

O sonho dos comentadores políticos de domingo à noite 


(Antes | Depois)

Coimbra vista do Japão 


(clique para ampliar - outras cidades)

Tiques rápidos repetitivos 

Já falei aqui de cardumes, de peixes, de como eles se movem e como esse movimento é comunicado aos restantes, servindo de aviso, de defesa, de meio de comunicação. Então e não é que soube pelo bactéria, que cita este artigo, que certos peixes também se "fartam" (isto para não usar o termo "peidam" - pronto, já usei), pensando-se mesmo que possam usar a flatulência como linguagem? Magnífico meio de comunicação! Como esses peixes são dos poucos que conseguem ouvir os seus "tiques rápidos repetitivos" (FRT = Fast Repetitive Ticks), nome muito apropriado também para os seus congéneres humanos, podem comunicar entre si sem os seus predadores saberem. Os "tiques" de peixe são audíveis aqui. Então e como se chama o peixe? Preciso mesmo de dizer? Arenque, claro!

AVISOpub 


(aliás o vento sempre vai) 

As melhores palavras surgem-me no chuveiro, ocorrem-me em verso, prosa ou rima infantil, ou palavras só soltas, são todas as melhores e de cadência maravilhosa. Eu naturalmente, oportunamente impedido de escrever. Quando isso acontece nada fica igual, a boca do estômago, as entranhas, as pernas, é o frio, revoltam-se, tremem e, talvez ainda, a palpitação. Na impossibilidade de escrever, essas ideias volantes nunca se chegam a solidificar. Vejo agora as gotas grossas de água que escorrem e caem, as gotas agora já não são gotas, de repente as gotas são palavras que aparecem, por mim deslizam, escoam-se depois. Repentinamente fecho a torneira. Nada se materializa, todo o momento se escoou, o meu pensamento seguiu em suspensão líquida, percorre agora túneis escuros e sujos, é retardado por areias movediças, junta-se a um rio de palavras, outras palavras de outros rios, cada vez mais forte. Chove, entendo que as gotas de água que caem e se desfazem estrondosamente no chão, são as tuas palavras. Procuro primeiro caminhar timidamente por entre as gotas sem me molhar, sem lhes perturbar a queda. As primeiras gotas que me atingem, mesmo quentes, provocam um arrepio numa sensação muito próxima ao frio, ao frio polar. Só depois reparo que toda a nuvem descarrega apenas em cima de mim, então fecho o chapéu e continuo a caminhar até também eu ser só água. Repentinamente fica sol, a chuva vai, as nuvens vão, o vento vai (aliás o vento sempre vai), só o Outono tem estes repentes de tempo. A minha roupa seca e nenhuma palavra se cristalizou, todas as gotas molham e trespassam a terra, correm em riachos antes de se juntar a um rio de outras palavras, sinto apenas o desconforto da roupa áspera. Outras vezes não se passa nada, fico apenas sentado, solitário, calado na berma do rio, olhando o número infinito das palavras outras vezes tão molhadas.

sexta-feira, novembro 7

Do complexo, ao muito simples. Picasso 



quinta-feira, novembro 6

lapsos de memória 

Olha sabes, contaram-me que o pai do Baltazar no Sábado passado foi levá-lo a uma festa. Achou estranho que não havia balões à porta da casa certa. Curioso que ninguém respondeu à campaínha cá de baixo. As escadas estavam em silêncio e o relógio marcava a hora do convite. Finalmente tocou à campaínha e bateu à porta, depois desceu as escadas todas outra vez para reler o convite... a festa era no Domingo! A sorte foi não estar ninguém em casa! Já viste, só mesmo ele para trocar uma coisa dessas...
Sim... fui eu que te contei essa história!...

quarta-feira, novembro 5

A Natureza do Mal: Champagne 



carga eléctrica 

o que é a carga eléctrica? como se entende que algumas partículas elementares tenham uma carga eléctrica positiva, outras negativa e outras ainda nula? a carga eléctrica é uma propriedade dessas partículas que se manifesta na interacção com campos eléctricos e magnéticos_ porque é que a carga eléctrica está quantizada, ou seja, surge apenas em multiplos da carga eléctrica do electrão, e não possui um valor qualquer (contínuo)? porque é que os quarks têm cargas fraccionárias (1/3 e 2/3 da carga do electrão) mas não existem partículas livres com essas cargas fraccionárias? possivelmente podemos imaginar a carga eléctrica como uma dimensão extra (além das três espaciais e uma temporal nossas conhecidas), em que são apenas permitidas algumas "posições" discretas, como os níveis atómicos discretos da energia, fruto da sua quantização_

Casa Pia 

Como se pode manter no sec XXI um modelo de instituição do sec XVIII?
Parafraseando alguém, loucura é fazer de novo errado esperando que desta vez dê certo.
Como se enfiam numa mesma casa centenas de crianças, centenas de histórias tristes, centenas de abandonos, de maus tratos, de experiências de promiscuidade, de ausências de valores morais ou de quaisquer valores e depois se espera que essas crianças tenham um futuro feliz? Por muitos psicólogos que lhes dêem, por muitos jogos didácticos e computadores oferecidos, por muitos ginásios fantásticos, por muitos técnicos dedicados... alguém acredita que essa seja a solução?

teoria da conspiração 

porque são as teorias da conspiração tão atraentes para a generalidade das pessoas? talvez porque nos ajudam a entender os acontecimentos mais complexos, porque simplificam esses mesmos fenómenos, colocando a sua causa nas mãos de interesses poderosos na sombra_ isto aplica-se à maçonaria, à opus dei, à "grande conspiração judaica" mundial, à cia e ao fbi, etc. etc. as teorias são, geralmente, simplistas, mas ajudam a explicar coisas que à primeira vista não conseguimos entender, porque, ou não temos acesso aos dados todos, ou não temos a capacidade para analisar todos os dados, ou não estamos para perder tempo a pensar e vamos pela via do menor esforço_ geralmente é mais fácil imputar a causa do nosso fracasso (como pessoas, como país, como humanidade) a grandes interesses obscuros do que tentar perceber, e resolver, as causas desse insucesso_

as teorias que tenho ouvido em relação ao processo casa pia (pcp) não têm fim_ desde algo manipulado pelo sic balsemão para aumentar as audiências e se livrar de alguns do seus profissionais mais caros, com vista à venda da sua empresa, até algo montado pela secreta militar, a pedido do ministro portas, para desviar as atenções do processo moderna! é mais fácil perceber o caso por este prisma do que entender o caos em que caiu o sistema judicial e exigir a tomada de medidas para que a justiça seja realmente justa_ as teorias da conspiração estão para ficar_

terça-feira, novembro 4

True Colors 


You with the sad eyes
Don't be discouraged
Oh I realize
It's hard to take courage
In a world full of people
You can lose sight of it all
And the darkness inside you
Can make you feel so small

But I see your true colors
Shining through
I see your true colors
And that's why I love you
So don't be afraid to let them show
Your true colors
True colors are beautiful,
Like a rainbow

Show me a smile then,
Don't be unhappy, can't remember
When I last saw you laughing
If this world makes you crazy
And you've taken all you can bear
You call me up
Because you know I'll be there

And I'll see your true colors
Shining through
I see your true colors
And that's why I love you
So don't be afraid to let them show
Your true colors
True colors are beautiful,
Like a rainbow

by Tom Kelly & Billy Steinberg, 1986
from "True Colors", Cindy Lauper.

Armanda

As Repúblicas 

O Luís da Natureza do Mal hoje está apostado em despertar-me lembranças. Agora veio falar da alta de Coimbra e de um tema que me é particularmente caro: as Repúblicas! Sem exagero nem pingo de lamechice muito do que sou hoje, sou-o por causa das Repúblicas. Vivi numa República, namorei numa República, casei com um Repúblico. Por isso em breve escreverei um post bem piegas sobre todas essas experiências.

Teresa Siza 

As voltas que o mundo dá. Leio na Natureza do Mal o post sobre a Susana Paiva, belíssima fotógrafa (e muito mais, segundo o Luís) que eu conheço sobretudo das lindíssimas e emotivas fotografias que ela fez no TEUC. Carrego no link para a sua página pessoal onde entre outras informações leio que fez formação com a Teresa Siza.
Conheci a Teresa Siza há muitos anos, antes de a Teresa Siza ser conhecida, ou então já era eu é que não sabia. Eu nessa altura era uma míuda e a Teresa Siza e a minha mãe davam aulas na mesma escola. A minha mãe contava histórias dessa colega, ligeiramente exótica, que tinha em casa um laboratório de fotografia e que ia para a escola num carro de dar à manivela. A Teresa Siza achava piada aos 7 filhos da minha mãe, todos mais ou menos pequenitos, e um dia fizémos uma verdadeira sessão fotográfica e temos em casa dezenas de fotografias tiradas por ela. Na altura não achei nenhuma piada, estava a entrar na adolescência, achava-me gorda feia e desajeitada e aos meus olhos isso era particularmente evidente em todas as fotografias. Com a agravante de os meus irmãos, todos mais novos, serem ainda umas lindas e adoráveis criancinhas.

nevoeiro 

Ora esconde ora deixa ver as formas, cria e sopra imagens impossíveis, os vales cobertos de branco, escorrendo, o relevo tornado plano, a terra libertando vapores aprisionados durante o dia anterior aos primeiros raios da manhã, a linha do horizonte que é transportada desde o infinito distante até à nossa frente, mas do mesmo modo intocável. Tudo solta, liberta a imaginação, nada mais nos distrai no essencial, nada mais do que branco, nada mais do que o que se entrevê não-vê. É frio e húmido, provavelmente a mistura mais mortal, não nos permite dispensar da presença do nosso corpo, esquecer a nossa existência em matéria, à falta de realidade exterior, somos nós que ficamos reais.

segunda-feira, novembro 3

A Natureza do Mal: o Gengibre 


liberdade vs. segurança 

artigo muito interessante de Harold Hongju Koh, professor de direito internacional na Yale Law School, e que foi secretário de estado assistente para os direitos humanos na administração clinton_

http://www.economist.co.uk/world/na/displayStory.cfm?story_id=2173160

apenas um extracto:
(...)
This framework foreshadowed the post-war human-rights construct—embedded in the Universal Declaration of Human Rights and subsequent international covenants—that emphasised comprehensive protection of civil and political rights (freedom of speech and religion), economic, social and cultural rights (freedom from want), and freedom from gross violations and persecution (the Refugee Convention, the Genocide Convention and the Torture Convention). But Bush administration officials have now reprioritised “freedom from fear” as the number-one freedom we need to preserve. Freedom from fear has become the obsessive watchword of America's human-rights policy.

Witness five faces of a human-rights policy fixated on freedom from fear. First, closed government and invasions of privacy. Second, scapegoating immigrants and refugees. Third, creating extra-legal zones, most prominently at the naval base at Guantánamo Bay in Cuba. Fourth, creating extra-legal persons, particularly the detainees of American citizenship labelled “enemy combatants”. Fifth, a reduced American human-rights presence through the rest of the globe.
(...)








sábado, novembro 1

A a Z 

As duas maiores bloguistas-sem-blog que eu conheço A e Z.

Post-it® 

Uma amiga deu-me um desses blocos amarelo o papel com uma banda adesiva nas costas. Ela diz que eu ando muito distraído e abstracto, quis contribuir para a cura do mal antes que me esqueça de alguma coisa maior. Toma lá para poderes colar as tuas ideias. A voz dela, para lá do doce da oferta, parecia uma ordem, olhei o bloquinho amarelo e entendi a voz de comando: Post-it® notas de quita y pon. Ao mesmo tempo uma angústia enorme me assaltou — os blogs já existiam desde tempos perdidos na nossa memória, como é que demorou tanto tempo até alguém entender finalmente a voz de comando post-it quantas ideias perdidas coladas na testa post-it no frigorífico post-it no monitor do computador post-it.

Dicas para uma condução amiga [3] 

Anda de autocarro e a pé. Se as tuas necessidades diárias não incluirem andar a pé, uma vez de quatro em quatro semanas, anda a pé mesmo por obrigação. Lembra-te que o autocarro vai para lá de qualquer modo, se picares o bilhete é menos um carro que anda e poluí e gasta a tua carteira.
Quando vais a pé ou de autocarro —de preferência nas mesmas ruas que tão bem conheces de carro— vê como são as passadeiras, avalia as setas de uma tonelada deslizando a 14 metros por segundo na direcção do teu corpo, decide se o chapéu deve proteger da chuva ou das poças de água quado os carros não abrandam, porque custa ver o autocarro atrasar pela prioridade não cedida, vê o que custam os passeios mal feitos, sem rampas para rodinhas, vê o que custa o som-trovão da aceleração –para quê– e o chiar dos travões –tem de ser–, se fores acompanhado no teu pé –tens sorte–, se conseguires falar e escutar –tens sorte–, vê o que custa o cheiro do fumo de escape, se conseguires respirar –tens sorte.
Anda a pé e de autocarro, por obrigação, uma vez de quatro em quatro semanas, aproveita e anda mais vezes por gosto.

Planets in the sky with diamonds 

Em "2061, Odissey three", Arthur C. Clarke fala de uma enorme montanha, Mont Zeus, feita de diamante, em Europa, o satélite de Júpiter. No final do livro, ficamos a saber que tal ideia não era produto de uma imaginação delirante: ela foi proposta há mais de 20 anos atrás, por Marvin Ross num artigo da Nature (vol. 292, No. 5822, pp. 435-6, 30 Julho 1981). Pelos vistos, há razões para pensar que podem literalmente chover diamantes em Neptuno e Urano (Science, 1 Oct. 1999). Assim como é possível que hajam estrelas com enormes diamantes, tal como as de cinema, mas um pouco maiores: há quem especule que possam chegar a ter 300 mil vezes a massa da Terra...

Os diamantes são eternos (“Diamonds are forever”) 

Qual quê. Os diamantes são uma treta (“Diamonds are bullshit”), isso sim.

Eles até que são úteis. São o material natural mais duro, riscam todos os outros e por isso duram mais tempo – compreende-se o termo "eterno" em termos industriais. Excelentes condutores de calor, daí frios ao toque, podem vir a dar um jeitão para chips de computadores. Feitos apenas de carbono, tal como a grafite do lápis, são mais raros e imensamente mais caros. Só que, e aí está o busílis, não são tão raros quanto isso. O elevado preço deles é uma treta muito bem montada e nós caímos na esparrela que nem uns patinhos.

Há uns tempos vi os 5 minutos finais de um programa da SIC notícias que falava sobre o grande negócio dos diamantes (nesta era do zapping, vejo sobretudo as partes finais dos programas bons e as partes iniciais dos programas maus). Do que consegui perceber e apoiando-me posteriormente em leituras algo apressadas pela net, os diamantes só são caros por razões de mercado e de marketing. O mercado é controlado por uma empresa, a De Beers, que através de uma muito bem montada campanha publicitária nos conseguiu convencer de que os diamantes são eternos, logo são a prenda ideal para demonstrar que o amor também é. As mulheres compraram a ideia (“Diamonds are a girl’s best friend”) e os homens a ideia de lhes comprar os diamantes (nisto parecemo-nos com certos pássaros que cortejam as fêmeas oferecendo objectos brilhantes). No tal programa da SIC, havia alguém que polemicamente dizia que a campanha publicitária da De Beers tinha sido a maior que a humanidade tinha conhecido desde a de Jesus Cristo. Hollywood foi um dos alicerces dessa campanha.

E a verdade é esta: estamos todos convencidos que os diamantes são caros porque são raros, para além de nos fascinar a beleza, o brilho. Somos tão tolos, não é? Quantos de nós conseguem distinguir um diamante verdadeiro de um falso? E mesmo que alguns consigam, é assim tão importante aquele brilhozinho? Os diamantes só valem o valor psicológico que nos foi impingido: compram-se diamantes porque eles são caros, inacessíveis. Lógica magnífica para quem os vende!

Agora, quanto à raridade, é uma treta: eles só são caros porque o monopólio da De Beers tem conseguido gerir a conta-gotas a exploração dos diamantes, que têm sido descobertos em abundância em “pipes” de Kimberlite no Canadá, Rússia, etc. A De Beers poderia aumentar muito a produção se o quisesse, mas lá se ia o valor, o elitismo e a mística. Há ainda os diamantes sintéticos, que para a joalharia são um mercado em expansão para os próximos anos. As primeiras empresas estão a aparecer, vamos ver como a De Beers resolve a questão.

Os diamantes e a De Beers recebem o meu prémio Melanocetus Johnsoni da desinformação, uma vez que conseguiram impor universalmente um conjunto de comportamentos e de slogans, toda uma elaborada cultura, perfeitamente artificial e sem qualquer sentido, ao longo de várias gerações. E, convenhamos: conseguir convencer o mundo inteiro de que umas pedras relativamente banais valem balúrdios é de génio!

[ao som de “Não te deixes assim vestir”, Sérgio Godinho]

Mais leituras sobre o tema: 1, 2, 3, 4, 5, 6.

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