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quinta-feira, setembro 30

0.02 € 

Deixo aqui os meus dois cêntimos (sou poupadinho) de sugestões que permitiriam poupar muitos milhões de euros ao país e assim reduzir o défice:

- uma-única-medida-uma: o estado passar a controlar e a limitar o dinheiro que ele próprio gasta em publicidade nos diferentes meios de comunicação social, e tornar essa informação acessível e facilmente verificável pelos cidadãos.

Os governos (e as autarquias, etc) sabem que um factor que ajuda a manterem-se no poder é o investimento em publicidade positiva junto de quem determina a sua manutenção no poder (os eleitores). Como essa publicidade não é paga pelos anunciantes mas sim pelos destinatários (os eleitores), há uma forte tentação dos governos em investir dinheiro em publicidade que favoreça as suas hipóteses de sobrevivência na eleição seguinte, em vez de o usar na melhoria da competitividade do país ou região.

Quanto gastaram os diferentes ministérios e instituições do estado em vídeos promocionais, na justificação de obras públicas, na criação de uma imagem de um país de sucesso que escondia a de um país falido? Valeu a pena o dinheiro investido pelo estado em programas de rádio que diariamente e durante anos a fio tentaram convencer-nos que somos uma economia de sucesso por termos algumas empresas inovadoras? Ou em sessões com alunos figurantes a demonstrar as vantagens de distribuir grandes quantidades de pequenos computadores difíceis de partir? E quanto dinheiro foi gasto em publicidade por empresas mais ou menos públicas que nos ajudaram a compreender melhor as medidas do governo?

Eu sei que não é fácil responder a esta pergunta cabalmente, mas seria interessante saber: quanto gastou o estado em publicidade para nos iludir?

Cócó, ranheta e facada 

Perdoem-me este título, mas é o único que me ocorre depois de ler a excelente crónica de Pedro Lomba no Público de hoje ("Três personagens à procura de um enredo", que se pode ler aqui).

Não ia ver os U2... 

...mesmo que tivesse dinheiro para isso (mesmo que tivesse não é só retórica..) Embora goste de música nunca me agradaram os ídolos de pau, bronze ou barro. Nem os da política nem os da música. Não é por um cantor dizer trivialidades sobre a paz no mundo que se torna mais relevante. E depois, que raio, as estrelas pop vão envelhecendo e querem parecer sempre novos. Nunca me interessaram as suas ideossincrasias, romances, tragédias ou opiniões (eles também não se interessam pelas minhas, estamos quites). Só a obra pode, ou não, ser interessante. De resto, as estrelas pop são vampiros que se alimentam do amor infantil dos que os adoram.

Sei de pessoas que pagaram mais de cem euros; na minha opinião, nenhum espectáculo vale esse valor. Há grupos de teatro, de bailado e musicais, ou orquestras, muito bons que têm pouca gente que queira dar 5 euros para os ir ver. Percebo, mas não entendo. Com as estrelas pop a multidão parece seguir o velho oxímoro da sociedade de consumo: sê tu mesmo fazendo o que te mandamos fazer. E que raio, se têm fome de contacto com deuses e comunhão intensa com outros seres humanos vão à missa, à igreja ali ao lado, a qual, vale a pena referir, já mal se vê ao lado do mastodonte horrível do estádio.

Podia ser só retórica, mas infelizmente não é... 

Há pessoas verdadeiras a sofrer, enquanto outras dão lustro às suas medalhas de latão e aos tesouros que amealham e esbanjam à custa do Estado.

O Governo veio anunciar um pacote de medidas de austeridade. Vale apenas ler para sabermos e que está lá e o que não está, mas talvez devesse estar.

Comecemos por um exemplo óbvio. Os cortes cegos não nos levam a lado nenhum: têm de ser dirigidos. Um carro de bombeiros ou um carro patrulha da polícia não podem estar no mesmo pé de igualdade de uma viatura oficial, mas poderá ser mais provável que se corte nos primeiros por razões de quantidade e poder.

A proibição de acumulação de salários com pensões é uma medida óbvia. As pensões assim como, por exemplo, os subsídios de desemprego são direitos que resultam da situação profissional ou social da pessoa e não direitos absolutos. Se a pessoa quer voltar a trabalhar no primeiro caso, ou se lhe arranjam emprego, no segundo, deveriam deixar de ser devidos. Mas devemos ainda ir mais longe: para uma efectiva política de emprego qualificado e produtividade dos servidores do estado é necessário tornar excepcional qualquer tipo de acumulação remunerada (e as não remuneradas devem ser controladas para evitar abusos como vai acontecendo com os psicólogos e jovens doutorados à procura de currículo). Não faz sentido, com tantos doutorados em situação precária, que nas Universidades e Politécnicos haja tanta gente a acumular funções, continuando, muitas vezes, a auferir legalmente de exclusividade. Com os médicos e os enfermeiros a mesma coisa: já não faz sentido permitir a acumulação de funções e de proventos adicionais. Se fazem falta nalgum lado é porque estão mal distribuídos, pois as médias destes profissionais por número de habitantes são superiores às da UE.

Cortar nas ajudas de custo parece bem. Mas cortar como? Para começar por esta coisas corporativa de serem proporcionais à categoria profissional do beneficiário. Depois onde se corta? Uma assistente social ter ajudas de custo para ir visitar uma família em risco não é o mesmo que um funcionário de qualquer ministério envolvido em qualquer sinecura ter ajudas de custo para ter uma reunião inútil num qualquer ponto do estrangeiro.

E será que ajudas de custo se referem também a despesas de representação e outros complementos salariais? É que nesses complementos, que provavelmente não são contabilizados como salário, deve estar muita despesa oculta. E não se pense que isso só se passa no emprego directo no estado. Também, por exemplo, os juízes e magistrados têm subsídios de instalação. Se os professores não os têm porque hão-de tê-las os juízes e magistrados que ganham três ou quatro vezes mais que os professores. E porque hão-de tê-las os obscuros dirigentes do estado?

Os ministérios e serviços centrais não podem ser sorvedouros de recursos financeiros para burocracias. Uma medida efectiva seriam metas aceitáveis de redução das despesas com os serviços centrais, e.g., 5%, 10%; um número que desse um sinal de que se procurava de facto reduzir as despesas do estado. Se se reduz 5% nas Escolas, nos Hospitais, ou na parte produtiva do Estado, tem de se reduzir pelo menos o dobro nos gabinetes. É de notar que estes cortes não gerariam necessariamente desemprego directo, pois uma grande parte das pessoas que anda pelos ministérios vem de outras partes do estado, requisitados, nomeados ou destacados.

A questão da necessidade de cortes nos serviços centrais vale a pena ser olhada com atenção. É muito interessante que o Estado contratualize um sem número de serviços, estudos, pareceres, projectos, quando tem, supostamente, imensos funcionários e especialistas para os fazerem. As firmas de juristas florescem à conta disso. E se calhar também são contratualizados aos seus próprios funcionários, ou agentes e servidores do estado que acumulam funções.

A questão das transferências para o sector privado e subsídios é também muito interessante. É que como já aqui escrevi a propósito de outro assunto o estado financia muitas vezes os lucros do sector privado. E aqui está uma coisa a analisar com cuidado, em especial a engenharia financeira (pseudo-reinvestimentos, etc.), que o sector privado faz para não pagar impostos. E não me venham dizer que os hipermercados, ou outro tipo de negócios lucrativos, se deslocalizariam se perseguidos, que eu não acredito.

Infelizmente, como escreveu um jornalista espanhol a propósito de Espanha, parece também haver em Portugal um alargado conjunto de pessoas poderosas e influentes que paga menos impostos do que o que deveria e que se vai aproveitando da situação, o qual impede os governos de tomar as medidas necessárias; digo, as necessárias não as que parecem necessárias. E não se pense que a esse grupo só pertencem banqueiros, políticos, empresários e professores universitários; não, não, deste também fazem parte médicos, juristas, juízes, magistrados, altos funcionários públicos e servidores do estado, entre outros; o conjunto é grande e não são só os outros.

Não sou masoquista, mas aceitaria melhor os cortes que me vão fazer nos rendimentos disponíveis se visse estas medidas óbvias implementadas e o meu país a ficar com uma economia e uma sociedade mais saudáveis.

domingo, setembro 26

Navegar no livro das caras 

Fiz anos há alguns dias e, para além da família mais chegada, ou mais atenta, e das duas já clássicas cartas de parabéns do banco e do serviço de doação de sangue, recebi, este ano também os parabéns, de forma algo inopinada, no trabalho e na rua. Não é que, de repente, me tenha tornado mais popular: simplesmente o Facebook avisa as pessoas do nosso aniversário caso coloquemos lá a nossa data de nascimento. Assim, devo dizer que já retirei esse dado, não que queira mantê-la em segredo, mas porque me parece muito invasivo avisar as outras pessoas, que nem sempre são assim tão chegadas, de que fazemos anos.

Ironia à parte, o Facebook, como já aqui escreveu o Nuno, ou como a Isabel demonstrou com eloquência de forma activa, veio introduzir uma razoável confusão nas relações humanas e profissionais. E não estou a falar das questões da produtividade, alienação, controlo externo, ou Farmville. Refiro-me a aspectos mais prosaicos: não dominar os aspectos mais elementares da gestão informática da privacidade; não se ter a noção de que para sair da conta se deve fazer logout; não saber que se pode desligar os avisos de aniversários e outras coisas inúteis e estar sempre a receber avisos sobre tudo; não separar o público do privado; misturar verdadeiros amigos com colegas, conhecidos, desconhecidos, figuras públicas, figuras obscuras, pseudónimos, avatares e o vizinho que mal se conhece, e não se ter uma noção clara de como comunicar com todos; entre tantas outras coisas.

Para evitar equívocos, parece-me sensato que reservemos as familiaridades para a família e a amizade para os amigos, ficando para todos os outros a troca de ideias e notícias e também, claro, a solidariedade e apoio se necessário.

No meu caso, desde o início vi o Facebook como um meio de divulgação, acompanhamento e obtenção de informação sobre actividades culturais. Não estava há espera, porque sou optimista, de encontrar tanta irrelevância e ruído. De qualquer forma tento encontrar e transmitir um equilíbrio. E não me limitei a retirar o aniversário. Também desliguei todos os avisos, impedi a escrita no mural, bloqueio todas as aplicações fancy, recuso todos os pedidos de Farmville e similares; e tenho ocultado tudo o que me parece menos próprio ou demasiado pessoal (isso faz-se, devo dizer, bloqueando as pessoas que o fazem).

Infelizmente crime perfeito do Jean Brouillard está cada vez mais perfeito: a realidade virtual substitui a realidade e nem se nota.

sábado, setembro 25

Para um discurso crítico sobre a crítica quotidina 

Já não vinha aqui há algum tempo. Encontrei este rascunho que escrevi em Junho, adaptei-o e publiquei-o agora. Talvez esteja desactualizado...

As televisões e jornais estão cheios de sábios que sabem exactamente o que está mal no mundo. Há anos que os há e há anos que os ouvimos; e ainda se queixam que ninguém os ouve. E há tanto tempo que os há que até parece que existiam antes da luz eléctrica. São o nosso ruidoso batalhão de Medinas Carreiras que quando estiveram nos governos fizeram o que puderam e agora que não estão pedem que os outros façam coisas que deveriam ter feito no passado ou que só eles sabem como se faz. E como criticam forte e feio têm a cumplicidade de todos. O velho Chesterton é que topou bem a cena: na crítica todos se encontram; o pior é nas soluções.

Um exemplo entre muitos, o António Barreto; conseguiu escrever umas absurdidades descabeladas sobre a ASAE (será que ainda alguém se lembra?) depois de ter feito mais uma novíssima, embora milionésima, análise sobre os portugueses (claro que sendo milionésima talvez tivesse de original pouco mais do que a música, mas isso é um pormenor). Agora é editor, por conta de uma fundação de uns livros por sinal bem interessantes que, como não poderia deixar de ser... tratam de crítica! As universidades, os gabinetes, as fundações, os tribunais, os cafés, as vielas (já não existem, mas são um recurso retórico), todo o país está cheio de críticos dispostos a dizer que todos os outros são maus. Claro que todos os outros também são eles próprios, mas isso é um pormenor. Aliás o que é que eu estou a fazer agora? O mesmo que todos; estou a criticar aos outros...

Está bem, vou tentar ser diferente; vou propor medidas e podem ter a certeza que não vou amuar se não as implementarem. É que eu, tal como o Albert Cossery e o mais inteligente crítico que temos em Portugal, o Ricardo Araújo Pereira, acredito no riso e no escárnio...

Medida 1: Taxas sobre a crítica que tenha efeitos quantitativos. Para que a crítica não seja só retórica, economistas e políticos reformados ou mesmo activos que exigem a diminuição dos salários deveriam começar por devolver a parte das suas reformas, salários, comendas e outros ganhos correspondente à diminuição que pedem.

Medida 2: Classificação como actividade inútil e sujeita ao ridículo social as actividades que não produzem nada e ainda por cima gastam recursos. E não estou a pensar nos críticos, comentadores e analistas televisivos profissionais repetitivos. Um bancários que angaria muitos empréstimos e cartões de crédito estará de certeza a ser muito produtivo. Tal como um angariador de pacotinhos de serviços de telecomunicações, ou um agente de viagens a vender férias nas Maldivas. Até um jornalista que escreve best-sellers que não interessam nem o menino Jesus, e até parece que não é ele que os escreve, está a ser muito produtivo. Este tipo de produtividade não nos interessa, como agora dirá qualquer economista reformado; eu concordo. O que é preciso é vender coisas aos estrangeiros, e não ficarmos por cá a vendermos coisas uns aos outros que comprámos aos estrangeiros.

Medida 3: Aproveitar o que temos de melhor Por exemplo, implementar (é uma palavra gira) medidas para apoiar a emigração dos nossos críticos que escrevem nos jornais e falam nas televisões. Ao mesmo tempo que levam o nome de Portugal mais além, ainda nos podem mandar divisas (dinheiro mesmo, não sentenças e dichotes). Esta medida poderia ser estendida ao nossos políticos, mas aí estaria, de forma pouco original, a propor o mesmo que os críticos referidos no início. Ah miséria, que falar é fácil...

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