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quinta-feira, fevereiro 7

O shampô cancerígeno e as personagens de ficção 


Ouvia na Antena 1 o programa Esplendor de Portugal. Juan Goldin, Ronaldo Bonnachi e Ana Djaimilia Almeida, simpátios estrangeiros a viver entre nós, comentam coisas de Portugal e do mundo. Foi por eles que soube do recente estudo da UKTV Gold sobre a dificuldade dos britânicos em distinguirem as personagens de ficção das personalidades reais. Sem ficha técnica, apenas sabendo que foram inquiridos 3000 britânicos, faltam-nos muitos dados. Foi um estudo de resposta voluntária ou um inquérito genuínamente aleatório? Nada disto foi discutido, mas os comentadores foram muito sensatos a analisarem o tal estudo. Gostei de os ouvir. O pior foi quando um deles se saiu com o já velho mito urbano do shampô cancerígeno. A ignorância e a suspensão do juizo crítico quando as matérias são vagamente científicas, num mundo cheio de informação é tão ou mais grave como a dificuldade de distinguir personagens reais ou de ficção. É que num mundo cheio de informação julga-se que se sabe uma coisa quando apenas se teve acesso a informação e acredita-se só porque alguém se deu ao trabalho de a difundir. Mas fará algum sentido muita da informação que nos enviam, ou a que temos acesso, que parece encaixar tão bem nas nossas visões do mundo cheias de conspirações e maldades ocultas? Fará mesmo algum sentido que os produtos estejam cheios de produtos concerígenos e ninguém os retire do mercado, ou pelo menos não ponha neles um aviso como os do tabaco? Estou à espera de um inquérito sobre isto. Entretanto recordo a campanha para banir o óxido de dihidrogénio.

quarta-feira, agosto 6

A sequela das galinhas esquecidas 

Nós os portugueses devemos ser mesmo muito estúpidos. Andamos do medo pânico para a indignação inconsequente e voltamos de novo. Sempre com os olhos abertos de espanto, mas paralizados como o burro de Buridan.

Lembram-se do triste e ridículo espectáculo gerado pelos nitrofuranos encontrados nos galinácios? Por ganância mediática, vontade de culpar os outros, ou pura e simples incompetência, quase se destruiu a confiança das galinhas portuguesas. E não se pense que as galinhas portuguesas são piores que as outras da União Europeia. São apenas boas alunas. Ora vejamos.

No final dos anos setenta no "mundo civilizado" discutia-se alegre e cinicamente os custos de se abandonar o uso de antibióticos na alimentação animal. Já se conheciam demasiado bem os seus efeitos adversos, mas o lucro era mais importante. Por cá as nossas galinhas (nessa altura ainda se chamavam assim) comiam milho (que não era ainda transgénico) mas as salmonelas espreitavam por todo o lado. Por essa altura dizia-se que quando um pobre comia frango um dos dois estava doente. Foi passando o tempo e as nossas galinhas também conheceram as novidades tecnológicas. Entram para a União Europeia, embora a sua esperança de vida (agora asséptica e livre de doenças) tenha diminuido muitíssimo.

Havia, no entanto, o tal problema da suspeita de efeito cancinogénico. E assim, com uma rapidez impressionante (mais de uma década!) a União Europeia proibiu os nitrofuranos em 1995. Note-se que nos EUA só em Setembro de 2002 este produto foi definitivamente proibido. A razão por que demoraram tanto estas proibições deve ter muito pouco a ver com a saúde pública. E vá-se lá saber o que é que dão agora aos animais que ainda não foi descoberto ou que é eliminado antes de chegar ao consumidor.

Mas, nem medo pânico nem alegre deixa andar. Cancerígeno? É quase tudo o que nos rodeia. Por exemplo, a gasolina contêm benzeno em percentagens entre um e cinco por cento, um produto que já foi banido dos laboratórios químicos por ser comprovadamente cancerígeno. Pesticidas? Agora chama-se protecção integrada. É necessário bom senso, informação de qualidade, competência e eficácia.

Num país pequeno como Portugal temos de ser realistas: são necessária menos carros de luxo para os gestores, que já são demais, e mais gente a trabalhar em coisas que se vejam. Chega de papeladas e cábulas da União Europeia. É preciso pôr as mãos ao trabalho, ter ideias novas: agir com inteligência. Será que os produtos que nos chegam dos outros países são analisados regularmente? Haverá laboratórios suficientes em Portugal? Será que para o controle do dopping há bons aparelhos e para o resto logo se vê? Será que é suficientemente incentivada a produção nacional de qualidade, com apoio técnico competente e presente sempre que é necessário? Ou têm ainda os agricultores, se ainda os houver, de ir aos gabinetes dos senhores doutores pedir favores, ou ficar à mercê de remédios milagrosos? Para quando o aproveitamento eficiente e integrado das nossas florestas? Por que não são aproveitados os resíduos florestais para produção de energia, ou outra coisa qualquer, resolvendo-se o problema da sua existência nos solos? Se estamos paralizados por causa do dióxido de carbono, que multas merecemos por causa dos fogos florestais?

E assim se vê o que têm as galinhas a ver com os fogos florestais. Quase nada, ou quase tudo. Mas, desgraçadamente, com as galinhas ainda nos podemos rir. Já com os fogos florestais não há absolutamente nada para rir. É demasiado triste.

segunda-feira, julho 13

Os mitos do artificial que é sempre mau e do natural que é sempre bom 

Na televisão, vi que a Mónica Lice do Blogue da Minisaia lançou um livro com conselhos de moda e cuidados pessoais. Apanhei mesmo o momento dos champôs com os tais produtos e pensei logo: outra vez o persistente mito urbano do champô cancerígeno sobre o qual já falei aqui...

Mas após ler o texto que escreveu a Mónica em 2006 só posso admirar a sua sensatez. E até digo mais: ajudar as pessoas a serem mais sensatas e menos histéricas em relação às coisas artificiais e naturais é um verdadeiro serviço público. Pois, nem as coisas são más apenas por serem artificiais, nem as coisas naturais deixam de poder fazer mal por serem naturais.

E para aqueles que se obstinam com esta última ideia sugere-se que pensem em coisas naturais como cogumelos ou bagas venenosos, sementes de rícino ou estramónio, raizes de cicuta, minerais de cinábrio e mínio (corantes naturais de mercúrio e chumbo, respectivamente), e outros mimos que a natureza nos oferece.

sábado, novembro 13

O sabor dos bons velhos tempos 

"Mesmo quando protesto contra o fabrico em linha de produção da nossa comida (...) não esqueço que eram raros os lares em que se cozia, nos velhos tempos, bom pão. Os cozinhados da minha mãe eram, salvo excepção, pobres; o bom leite não pasteurizado era tocado por moscas e pedaços de estrume a formigar de bactérias; os velhos tempos saudáveis eram salpicados por dores, mortes súbitas provocadas por causas desconhecidas; a doce fala que eu choro era o fruto da iliteracia e da ignorância. Mas faz parte da natureza humana (...) protestar contra a mudança, em particular contra a mudança para melhor", John Steinbeck, citado em Morton Satin, Alerta! Perigos na alimentação (Prefácio, 2001).

É indiscutível que graças ao desenvolvimento tecnológico no processamento dos alimentos, em geral, e ao controlo de qualidade e à química, em particular, a alimentação é hoje muito mais segura que nos bons velhos tempos que refere Steinbeck. As legítimas suspeitas de que um aditivo possa causar alergias ou ser potencialmente cancerígeno não devem fazer esquecer que este possa estar lá para evitar um mal muito maior: a intoxicação alimentar ou a infecção que podem ser fatais. E se há suspeitas, outro aditivo, ou outro processo de produção acabará por ser descoberto, tornando o alimento ainda mais seguro.

E quanto ao sabor dos velhos tempos? Suspeito, tal como Steinbeck, que as coisas antigamente não deveriam ser assim tão saborosas. Um processamento empírico, mas ignorante das suas razões e a conservação deficiente não deveriam originar lá grande coisa. Por exemplo, a generalidade dos vinhos eram zurrapas que podiam nem sequer ser feitas de uvas. Também não havia grande cuidado com a origem; no início do século, Portugal chegou a exportar vinhos para fazer Bordéus! As carnes eram conservadas em salgadeiras insalubres, os presuntos caseiros ganhavam quase sempre larvas, os chouriços excessivamente defumados eram autênticas bombas cancerígenas; no leite não pasteurizado e excessivamente gordo a brucelose e o carbúnculo espreitavam; as pessoas às vezes têm saudades de coisas que não gostariam de voltar a ter...

No entanto há alguns casos bem comprovados de alteração de sabor, por exemplo nos maracujás! Os espectros de massa dos maracujás actuais e os dos bons velhos tempos mostram uma diferença significativa [1]. A manipulação genética ao longo dos tempos por cruzamento de variedades e a criação de híbridos foi alterando o sabor destes frutos. E isso até deve ser mais comum do que se possa pensar; as árvores e arbustos dos quais comemos frutos têm uma tempo de vida relativamente curto e talvez não seja de esperar que as frutas tenham o mesmo sabor hoje que antigamente. Uma coisa é certa: não se pode esperar grande sabor de frutas e legumes apanhados verdes a milhares de quilómetros, ou produzidas fora de época em estufas para satisfazer não sabemos que tontice...

[1] Ben Sellinger, Chemistry in the marketplace, 4th ed (HBJ, Sydney, 1989) pp. 220-222.

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