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sexta-feira, janeiro 30

argumentos de decepção em massa 2 

do artigo da revista "the economist":

Iraq's elusive weapons of mass destruction: Saddam Hussein's weapons mirage

George Bush and Tony Blair exaggerated, but they did not lie

mas qual é a diferença? estas subtilezas ultrapassam-me...


Tourada 

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
esperas.
Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.
Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.
Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.
Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.
Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.
Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...
Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.
E diz o inteligente
que acabaram as canções.

Ary dos Santos, As Palavras das Cantigas

quinta-feira, janeiro 29

Declaração 

Não sei quem sou. O que sinto ou o que penso.
Sinto mais do que penso. Mas penso no que sinto.
Não sei porque vos interessa o que sinto ou penso.
Não sei porque me interessa o que sentis ou pensais.

Não sentir não posso.
Mas não quero pensar.

Não me apetece escrever. Aliás, nem sei escrever.
E é por isso saber, que me apetece isto escrever.

E não voltarei a escrever.


Enviado por A.

quarta-feira, janeiro 28

riscos 

aparentemente o crescimento da globalização (linha castanha) segue o aumento do número de desastres naturais (linha azul clara) e dos desastres com origem humana (linha azul escura)! gráfico retirado da revista "economist"_ o número de desastres naturais aumentou em virtude de fenómenos como o aquecimento global ou aumentou apenas a percepção desses desastres em virtude de uma cobertura mais global pelos meios de comunicação? provavelmente nem uma coisa nem outra_



terça-feira, janeiro 27

magueijo 

para quem se interessa pelas coisas da cosmologia_ o joão magueijo é a nossa "estrela" em londres (apesar de ele próprio se considerar mais uma supernova, tal o seu brilho - interpretação maldosa da minha parte!)_ é o homem da teoria da velocidade da luz variável (a velocidade passa por uma transição de fase, em que o seu valor pode variar de muitas ordens de grandeza, para explicar algumas observações e questões intrigantes)_ claro que muitas coisas ficam por explicar_ a não conservação da energia é difícil de engolir_ e não explica nada da actual aceleração da expansão_
este artigo é bastante técnico, mas pelo menos vejam a introdução e as conclusões:
http://theory.ic.ac.uk/~magueijo/rev.pdf


segunda-feira, janeiro 26

Sem palavras (clique para ampliar) 




domingo, janeiro 25

Por uma boa causa 

O blogue Paz na Estrada, da ACA-M, pede voluntários para a recolha e catalogação de informação relativa a sinistralidade rodoviária.

Finalmente! 

É uma boa notícia. Excelente, mesmo: a Brigada de Trânsito (BT) vai investigar acidentes a partir de Junho. No entanto, é uma notícia que, infelizmente, confirma algo que nos devia envergonhar a todos: os acidentes rodoviários não são estudados cientificamente em Portugal. Isto apesar da calamidade das estradas, da vergonha das nossas estatísticas, dos milhares de mortes, estropiados e famílias desfeitas e apesar da comunidade científica estar receptiva a ajudar nessa tarefa. Apenas discutimos, em conversas de café e num ou noutro debate nos media, se as causas da sinistralidade são o excesso de velocidade, as más estradas, a falta de civismo, de destreza, ou outra coisa qualquer. Já todos fizemos isto, repetidamente. Um acha isto, outro aquilo, com base numa paupérrima informação estatística. Quantos estudos científicos foram feitos nos últimos anos em Portugal sobre a sinistralidade rodoviária, com o fim de compreender as causas e assim se poder determinar a melhor forma de agir? Quantos poderiam ter sido feitos, quantas mortes seriam evitadas e quantos euros poupados, se tivesse havido vontade e se se tivesse pedido a colaboração da comunidade científica e da população em geral?

Saliento o seguinte da notícia:

"Trata-se de uma iniciativa inédita na investigação criminal de acidentes, dado que não existe nenhuma força policial com uma estrutura própria do género", diz fonte da BT, adiantando que, "nos tempos que vão correndo, somos o único país da Europa onde isso ainda acontece". [...]

"Na prática, as equipas vão funcionar como as de investigação criminal da Polícia Judiciária quando chegam ao local onde ocorreu um homicídio. Podem recolher informações tão específicas como a dos rastos de travagem ou a qualidade dos pneus dos carros envolvidos no acidente.
Actualmente, segundo a BT, "não há um trabalho científico" nesta área. Quando os agentes são chamados ao local de um acidente recolhem elementos para o Boletim Estatístico de Acidentes de Viação e, no caso de haver mortos ou queixa por parte de feridos graves, elaboram um auto de notícia para o tribunal." [...]

"
Para atacar os efeitos [da sinistralidade] é preciso saber quais as causas." Claro, obviamente. Cura sem diagnóstico só mesmo por sorte. E só em Junho é que vamos começar a agir em conformidade, passados tantos anos?!

sexta-feira, janeiro 23

angola 

recomendo a leitura de um curto mas interessante artigo acerca da pilhagem de angola por parte dos seus dirigentes_ tem o título significativo de "os ricos sem vergonha e os pobres sem voz"_ está na revista "economist" em
http://www.economist.co.uk/world/africa/displayStory.cfm?story_id=2375406

considero igualmente vergonhosa a posição cúmplice dos nossos sucessivos governos que pactuam com uma situação chocante na sua flagrante imoralidade_ porque é que ninguém diz ou faz nada? quais os interesses claros e escuros envolvidos?


quinta-feira, janeiro 22

liberdade de imprensa e internet II 

Escrevi abaixo sobre liberdade de imprensa e internet, referindo de forma simplista que os custos da internet são baixos. Mas não estava a ver bem a complexidade do problema. Não é difícil antever um cenário em que se volte aos anos cinquenta de Aldous Huxley. Os fornecedores de serviços de rede já cobram pelo volume de tráfego e os lugares mais visitados têm de pagar mais. Para continuar, ou até apenas sobreviver, é necessário recorrer a donativos, assinaturas, pagamento de conteúdos e publicidade. Outras soluções criativas haverá, mas, se quem fornece os serviços de rede começar a aumentar os preços de forma incomportável e a publicidade começar a influenciar os conteúdos, lá estaremos de novo nos anos cinquenta!

Dei conta disto ao visitar o Weblog em Portugal criado pelo Paulo Querido, que tem feito um trabalho excelente e que está a aceitar donativos para ajudar a pagar as contas da popularidade. Também o nosso servidor de comentários se debate com o dilema de aceitar donativos para poder continuar a ser generoso e contribuir para a liberdade de todos.

A incerteza dos Abba 

Mas o que é que eu hei-de vestir hoje?

A certeza da Aba 

Não somos estes (com ou sem bigode).

Recuperámos os comentários antigos... 

... e as incertezas já funcionam outra vez nos dois sentidos. "Nós, os Abas que aqui estamos, pelas vossas incertezas esperamos." (mas onde é que eu já ouvi isto?)

quarta-feira, janeiro 21

Proto-bloguismo 

JPP procura "uma espécie de genealogia do tipo de escrita dos blogues", tendo ido buscar os cadernos de Camus e de Valery como exemplo de escrita que tem algumas semelhanças com os blogues actuais. Eu dou aqui a minha humilde contribuição. É de mau gosto, mas que diabo, é o proto-blogue por excelência! Ele existe desde tempos imemoriais e é ubíquo hoje em dia. Dei conta de que era um proto-blogue quando entrei num deles e comecei a ler os posts, alguns engraçados. Os posts podem estar assinados ou não, tipicamente são textos muito curtos, de vários autores, podem ter imagens, estão datados ou não, lêem-se por qualquer ordem e podem ser comentados por vários leitores, tal como na maioria dos blogues. Têm links (tipicamente números de telemóvel), mas não têm links para outros proto-blogues. A audiência é de alguns leitores por dia. Sim, refiro-me às portas e paredes dos WC's públicos.

terça-feira, janeiro 20

Liberdade de imprensa, internet e conversa fiada 

Aldous Huxley chama a atenção, no Regresso ao Admirável Mundo Novo (1957), para o facto de nos anos cinquenta do século XX já não haver a liberdade de expressão que havia no início do século. Nessa altura, segundo Huxley, todos os países democráticos se podiam orgulhar de ter um grande número de pequenos jornais, nos quais milhares de editores exprimiam milhares de opiniões diferentes. Nos anos ciquenta, embora a imprensa fosse legalmente livre, os custos do papel e da impressão eram demasiado grandes para os pequenos.

Chegámos ao final do século XX com o mesmo problema, muito embora com algumas variações. De facto, embora actualmente os elevados custos de impressão dos anos cinquenta sejam parcialmente evitados com os novos meios de edição, num mundo massificado e controlado pela publicidade, como é o de hoje, o que é difícil de obter é visibilidade. Usando uma imagem, antigamente os barcos pequenos não podiam navegar devido aos elevados custos de manutenção, hoje podem navegar, sim senhor, mas ninguém os vê no meio de enormes paquetes cheios de luzes e apitos.

Agora, com a Internet, este problema parece ter deixado existir. Os custos são quase nulos, a visibilidade consegue-se via mail e motores de busca, pelas citações, de boca em boca, de link em link, e nisso os blogues são paradigmáticos. O principal problema, da Internet, do qual Aldous Huxley também falou, embora a propósito dos media, é o grande potencial de distracção e alienação do homem. As notícias, a informação, a propaganda, já não são necessariamente falsas ou verdadeiras, podem ser também irreais e irrelevantes. As opiniões e as análises já não são apenas boas ou más, lógicas ou falaciosas, são também, muitas vezes, apenas tagarelice.

aula de matemática 

Pra que dividir sem raciocinar
Na vida é sempre bom multiplicar
E por A mais B
Eu quero demonstrar
Que gosto imensamente de você

Por uma fração infinitesimal,
Você criou um caso de cálculo integral
E para resolver este problema
Eu tenho um teorema banal

Quando dois meios se encontram desaparece a fração
E se achamos a unidade
Está resolvida a questão

Prá finalizar, vamos recordar
Que menos por menos dá mais amor
Se vão as paralelas
Ao infinito se encontrar
Por que demoram tanto os corações a se integrar?
Se infinitamente, incomensuravelmente,
Eu estou perdidamente apaixonado por você.

antónio carlos jobim/marino pinto

medida da performance de george dubya 

artigo do jornal "independent" de hoje_ contém números, obviamente selecionados de uma forma nada inocente, para medir a performance dos primeiros três anos do mandato do homem mais poderoso do mundo_ quase todos dão que pensar...

George W Bush and the real state of the Union
Today the President gives his annual address. As the election battle begins, how does his first term add up?

20 January 2004

232: Number of American combat deaths in Iraq between May 2003 and January 2004
501: Number of American servicemen to die in Iraq from the beginning of the war - so far
0: Number of American combat deaths in Germany after the Nazi surrender to the Allies in May 1945
0: Number of coffins of dead soldiers returning home from Iraq that the Bush administration has allowed to be photographed
0: Number of funerals or memorials that President Bush has attended for soldiers killed in Iraq
100: Number of fund-raisers attended by Bush or Vice-President Dick Cheney in 2003
13: Number of meetings between Bush and Tony Blair since he became President
10 million: Estimated number of people worldwide who took to the streets in opposition to the invasion of Iraq, setting an all-time record for simultaneous protest
2: Number of nations that Bush has attacked and taken over since coming into the White House
9.2: Average number of American soldiers wounded in Iraq each day since the invasion in March last year
1.6: Average number of American soldiers killed in Iraq per day since hostilities began
16,000: Approximate number of Iraqis killed since the start of war of the conflict
$100 billion: Estimated cost of the war in Iraq to American citizens by the end of 2003
$13 billion: Amount other countries have committed towards rebuilding Iraq (much of it in loans) as of 24 October
36%: Increase in the number of desertions from the US army since 1999
92%: Percentage of Iraq's urban areas that had access to drinkable water a year ago
60%: Percentage of Iraq's urban areas that have access to drinkable water today
32%: Percentage of the bombs dropped on Iraq this year that were not precision-guided
1983: The year in which Donald Rumsfeld gave Saddam Hussein a pair of golden spurs
45%: Percentage of Americans who believed in early March 2003 that Saddam Hussein was involved in the 11 September attacks on the US
$127 billion: Amount of US budget surplus in the year that Bush became President in 2001
$374 billion: Amount of US budget deficit in the fiscal year for 2003
1st: This year's deficit is on course to be the biggest in United States history
$1.58 billion: Average amount by which the US national debt increases each day
$23,920: Amount of each US citizen's share of the national debt as of 19 January 2004
1st: The record for the most bankruptcies filed in a single year (1.57 million) was set in 2002
10: Number of solo press conferences that Bush has held since beginning his term. His father had managed 61 at this point in his administration, and Bill Clinton 33
1st: Rank of the US worldwide in terms of greenhouse gas emissions per capita
$113 million: Total sum raised by the Bush-Cheney 2000 campaign, setting a record in American electoral history
$130 million: Amount raised for Bush's re-election campaign so far
$200m: Amount that the Bush-Cheney campaign is expected to raise in 2004
$40m: Amount that Howard Dean, the top fund-raiser among the nine Democratic presidential hopefuls, amassed in 2003
28: Number of days holiday that Bush took last August, the second longest holiday of any president in US history (Recordholder: Richard Nixon)
13: Number of vacation days the average American worker receives each year
3: Number of children convicted of capital offences executed in the US in 2002. America is only country openly to acknowledge executing children
1st: As Governor of Texas, George Bush executed more prisoners (152) than any governor in modern US history
2.4 million: Number of Americans who have lost their jobs during the three years of the Bush administration
221,000: Number of jobs per month created since Bush's tax cuts took effect. He promised the measure would add 306,000
1,000: Number of new jobs created in the entire country in December. Analysts had expected a gain of 130,000
1st: This administration is on its way to becoming the first since 1929 (Herbert Hoover) to preside over an overall loss of jobs during its complete term in office
9 million: Number of US workers unemployed in September 2003
80%: Percentage of the Iraqi workforce now unemployed
55%: Percentage of the Iraqi workforce unemployed before the war
43.6 million: Number of Americans without health insurance in 2002
130: Number of countries (out of total of 191 recognised by the United Nations) with an American military presence
40%: Percentage of the world's military spending for which the US is responsible
$10.9 million: Average wealth of the members of Bush's original 16-person cabinet
88%: Percentage of American citizens who will save less than $100 on their 2006 federal taxes as a result of 2003 cut in capital gains and dividends taxes
$42,000: Average savings members of Bush's cabinet are expected to enjoy this year as a result in the cuts in capital gains and dividends taxes
$42,228: Median household income in the US in 2001
$116,000: Amount Vice-President Cheney is expected to save each year in taxes
44%: Percentage of Americans who believe the President's economic growth plan will mostly benefit the wealthy
700: Number of people from around the world the US has incarcerated in Guantanamo Bay, Cuba
1st: George W Bush became the first American president to ignore the Geneva Conventions by refusing to allow inspectors access to US-held prisoners of war
+6%: Percentage change since 2001 in the number of US families in poverty
1951: Last year in which a quarterly rise in US military spending was
greater than the one the previous spring
54%: Percentage of US citizens who believe Bush was legitimately elected to his post
1st: First president to execute a federal prisoner in the past 40 years. Executions are typically ordered by separate states and not at federal level
9: Number of members of Bush's defence policy board who also sit on the corporate board of, or advise, at least one defence contractor
35: Number of countries to which US has suspended military assistance after they failed to sign agreements giving Americans immunity from prosecution before the International Criminal Court
$300 million: Amount cut from the federal programme that provides subsidies to poor families so they can heat their homes
$1 billion: Amount of new US military aid promised Israel in April 2003 to offset the "burdens" of the US war on Iraq
58 million: Number of acres of public lands Bush has opened to road building, logging and drilling
200: Number of public-health and environmental laws Bush has attempted to downgrade or weaken
29,000: Number of American troops - which is close to the total of a whole army division - to have either been killed, wounded, injured or become so ill as to require evacuation from Iraq, according to the Pentagon
90%: Percentage of American citizens who said they approved of the way George Bush was handling his job as president when asked on 26 September, 2001
53%: Percentage of American citizens who approved of the way Bush was handling his job as president when asked on 16 January, 2004

segunda-feira, janeiro 19

Ano Novo 

A passagem do ano já foi há muito tempo, dirão. É, de facto, o Ano Novo ocidental começou no dia 1 de Janeiro. Mas o Ano Novo ortodoxo começou no dia 13, enquanto o Ano Novo chinês começará lá para o dia 22 de Janeiro. O primeiro de Muharram islâmico será 22 de Fevereiro enquanto o Tísri hebraico terá sido no dia 27 de Setembro de 2003. Todos os dias passa o ano. Hoje também, claro.

Intermezzo relativístico 

Este blogue além de se vestir de incerteza quântica, se calhar também sofre de efeitos relativísticos. Paradoxalmente, ou talvez não, que isso é que é o vulgar no nosso mundo sensível, não se atrasa por andar perto da velocidade da luz. Não, não, atrasa-se é por andar muito devagar...

Passagem de ano para o povo e mais do mesmo... 

Na Praça da República, na passagem do ano organizada pela Câmara Municipal de Coimbra, o João Melo, dos Fúria do Açúcar, a declamar "pirilampos que do cume saem" e a cantar "caga nisso" e "que porra". A narrar estafadas estórias sem graça sobre lenços de papel reciclado que ao serem usados para "limpar uma lágrima do canto do olho poderiam já ter sido usados para limpar outro olho" e, na falta de algo mais imaginativo, a tentar prender o público com Benficas, Sportings e Briosas. Enquanto ouvia tudo isto, indiferente ao seu conteúdo e só ligeiramente enjoado, tive a certeza de que já há demasiada gente a cultivar a escatologia e a expressão livre dos instintos mais baixos. E que, se em algum momento ser grosseiro foi uma forma de protesto, já não o é agora de certeza, pois a grosseria está em todo o lado, em especial na televisão, nos estádios e nos espectáculos populares. Dir-se-ia que é para manter a turba ocupada e as pessoas cultas afastadas que, junto com a morbidez dos crimes e casos mais ou menos fabricados pela comunicação social, se fornece ao povo estes espectáculos absolutamente baixos e ridículos!

Nesse mesmo dia, pela tarde, na rádio, uma senhora o que mais desejava para o próximo ano era "castigo para os pedófilos!" e quando o locutor lhe perguntou se não desejava também saúde a senhora que "sim, sim, mas o que desejo mesmo é castigo para os pedófilos!..." Em seguida, outro ouvinte, desejou que a selecção portuguesa tivesse bons resultados e também "castigo para os pedófilos". Das várias pessoas ouvidas só dei conta de uma pedir mais atenção para com os pobres e com os trabalhadores.

Aproveitando os tradicionais pedidos das passagens de ano, o que mais desejo para este país é mais cultura, mais educação (no sentido nobre, embora mais urbanidade já não fosse mau), mais inteligência e mais espírito crítico.

domingo, janeiro 18

Tanta incerteza e tão pouco tempo... 

Os homens ocos

Somos os homens ocos
Somos os homens atulhados
A definhar juntos
Cascos repletos de palha. Ai!
As nossas vozes mirradas, quando
Sussurramos juntos
São silenciosas e sem sentido
Como vento em vidro enxuto
Ou patas de rato em vidro partido
No nosso árido cubículo

Formato sem forma, tonalidade sem cor
Poder paralizado, gesto sem movimento

Não estão aqui os olhos
Não há olhos aqui
Neste vale de estrelas moribundas
Neste vale vazio
Esta garganta partida dos nossos reinos perdidos

Neste final de lugar de encontro
Nós tacteamos juntos
E evitamos a linguagem
Reunidos nesta praia do túmido rio

Entre a ideia
E a realidade
Entre o gesto
E o acto
Cai a Sombra

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a réplica
Cai a Sombra

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a linhagem
Cai a Sombra

Esta é a forma como se acaba o mundo
Esta é a forma como se acaba o mundo
Esta é a forma como se acaba o mundo
Não com um estrondo mas com uma lamúria

"The Hollow Men" de T.S. Eliot
(tradução pessoal, mais ou menos livre, de alguns versos)

quinta-feira, janeiro 15

A incerteza dos comentários 

O comentador que estávamos a usar, o Marcelo Blogspeak, perdeu o pio. Diz que não perdemos os comentários, por isso aguardamos pacientemente o domingo à noite seu regresso.

condução 

o comportamento na estrada é possivelmente um bom teste psicotécnico_ talvez até seja uma possibilidade para concursos de recrutamento de recursos humanos! na estrada as pessoas, apesar (ou talvez devido a isso mesmo) de todo o stress e atenção envolvidos, sentem-se mais desinibidas e mostram mais facilmente o seu lado pior (que geralmente surge apenas sob o efeito do alcoól ou outros psicotrópicos)_ talvez tenha a ver com o aumento do seu espaço de intimidade, que agora abarca toda a dimensão do automóvel, ou devido à sensação de impunidade por causa da protecção da armadura de aço...
o comportamento ao automóvel (não só o comportamento próprio como a resposta ao comportamento do outros) reflecte assim a personalidade do condutor, a sua formação humana e cívica (em particular os seus aspectos mais frágeis)_ aparentemente muitas pessoas sofrem de personalidades múltiplas: pessoas calmas e educadas transformam-se em animais logo que se sentam atrás de um volante! e porque é que não é assim em todos os países? será que existe uma personalidade colectiva portuguesa, inculcada desde criança, por observação e imitação do comportamento dos adultos, que leva a isto? será que existe uma pior formação cívica? será que existe menos repressão desses comportamentos?
na minha opinião, em paralelo com uma profunda formação cívica das futuras gerações, é necessária uma séria aposta na repressão dos comportamentos perigosos, para que não sejam transmitidos a essa futura geração_ mas talvez a solução esteja na tecnologia, com a introdução de automóveis e estradas digitais, onde todos os veículos circulam dentro dos limites de velocidade, de preferência todos com a mesma velocidade, sem controlo por parte dos ocupantes_ é uma chatice mas parece que a condução é uma actividade demasiado séria e perigosa para ser deixada ao livre arbítrio de cada um_ existirão depois estradas "analógicas" onde cada um, por sua conta e risco, pode descarregar a adrenalina conduzindo sem restrições ou limites, como em portugal no ano de 2004!

terça-feira, janeiro 13

Dar o benefício da dúvida 

Num ano, o número de mortos na estrada diminuiu de 20% em França. Passaram de 7 242 em 2002 para 5 732 em 2003. 1510 vidas foram salvas. Esta impressionante redução acentuou fortemente a tendência dos últimos anos de reduzir a sinistralidade (em 2002 tinha havido menos 500 mortos e no longínquo ano de 1972 mais de 16000 pessoas tinham morrido nas estradas francesas).

As causas apontadas para tão drástica redução? O "medo da polícia", com a colocação de radares automáticos, reforço do controlo da velocidade e da alcoolemia, aumento de repressão:

La peur du gendarme, avec la mise en place de radars automatiques sur les routes début novembre 2003, a eu un effet dissuasif. Elle a conduit les Français à réduire sensiblement leur vitesse et en conséquence à faire baisser le nombre des accidents.
(Le Monde, 12 Jan 2004)

Em Portugal, onde a sinistralidade rodoviária é cerca do dobro da da comunidade europeia, o plano rodoviário tem como objectivo reduzir em 50% o número de mortes até 2010. Em face dos números franceses, pergunto-me se o plano é assim tão ambicioso: se atingirmos o objectivo, apenas chegaremos à média europeia (de 2003) em 2010. Até lá, de quanto terá diminuído a média europeia?

As pessoas têm de mudar o seu comportamento na estrada. Reduzir a velocidade, beber menos, etc etc. E as autoridades têm de apertar a fiscalização (que condiciona os comportamentos) e tornar as estradas mais seguras (um objectivo ao nosso alcance, haja vontade - não queiramos comparar as nossas estradas às francesas!).

Que diabo, o objectivo prioritário do governo não poderia ser o de reduzir drasticamente o número de mortes na estrada? E nós, os nossos objectivos pessoais, as nossas resoluções para este ano, não poderiam incluir o respeito pela lei quando estamos ao volante, refreeando a sede de velocidade e evitando andar sempre atrasados? E os que não acreditam que a velocidade excessiva é uma causa importante de acidentes, não poderiam ter a humildade de dar o benefício da dúvida e fazer a experiência de durante este ano conduzir à mesma velocidade dos restantes, sem pressas e abaixo dos limites? É uma seca, eu sei, mas se no final do ano houvesse uma redução de 20% do número de mortes isso não seria uma recompensa mais do que suficiente?

segunda-feira, janeiro 12

acerca do design de automóveis 

apesar de todas as óbvias (?) desvantagens do automóvel, como as frustrações de estar em filas monumentais, o desafio de circular em ruas estreitas ou o risco de vida de enfrentar as nossas estradas, para muitos, possivelmente para a maior parte, o automóvel é ainda o ambiente mais desejável, melhor desenhado, e mais compensador emocionalmente que alguma vez terão! qualquer um, homem ou mulher, novo ou velho, pobre ou rico, de qualquer nível cultural e social, pode usar o automóvel para explorar as vantagens de uma sociedade avançada tecnologicamente e para exorcisar as suas desvantagens_ equipado com todos os possíveis dispositivos para controlo da qualidade do ar, temperatura, iluminação interior e exterior, conforto ergonómico e, claro, velocidade, o interior de um automóvel é hoje a mais universal, e simultaneamente a mais extradionariamente pessoal, unidade habitacional mínima_ ele é capaz de exprimir qualquer mensagem que escolhamos em termos de representação simbólica_ os mais ricos de entre nós podem pretender desafiar as convenções conduzindo um qualquer dos inúmeros modelos utilitários disponíveis, em cada vez maior número de versões e estilos_ ou pode simplesmente escolher um automóvel em
segunda mão, se não quizer ir tão longe como uma motorizada! no caso contrário, um
membro da classe exibicionista estão preparados para fazer o sacrifício financeiro supremo para serem vistos a conduzir um automóvel desportivo de luxo_ os consumidores revelam todas as suas fraquezas e tiques, as suas aspirações frustradas ou realizadas e - sim, também - as suas necessidades, quando escolhem e utilizam os seus automóveis_ claramente uma consequêcia desta promiscuidade cultural, é a importância estratégica que a indústria automóvel assume para a sobrevivência das economias desenvolvidas_ não existe outro produto de consumo de massa que, quando as coisas estão bem, permita um tão elevado nível de lucro e no entanto permaneça tão aberto à inovação, levada até aos extremos mais improváveis_ enquanto poucos consumidores considerariam seriamente a utilização de uma charrete puxada por cavalos como meio de transporte para o dia-a-dia, em muitos outros sectores, como os móveis de casa, o tradicional e o antigo - falso ou verdadeiro - continua a predominar, ignorando todas as tentativas de modernização feitas por arquitectos e designers nos últimos 100 anos_ e no entanto, o jovem casal passa alegremente - não reparando na menor das contradições - de uma casa mobilada num estilo do passado, para um automóvel futurístico, completo com todos os mais avançados desenvolvimentos do design, 90 por cento dos quais gerados por computador_

traduzido e adptado livremente da revista "domus" n.865, dezembro de 2003

domingo, janeiro 11

Descubra as diferenças e as semelhanças 


Avalanche de penas 

Numa praça, agarrei nuns pequenos grãos milho de pipoca que alguém tinha esquecido e que, estranhamente, tinham passado despercebido aos pombos que andavam por ali perto. Estavam à mão de semear: atirei 4 grãos para a calçada, houve certamente um "tic, tic, tic, tic", imperceptível para mim.

1. Os pombos mais próximos precipitaram-se imediatamente para os grãos.
2. Os que esgravatavam o chão mais longe, aperceberam-se do esvoaçar dos primeiros e voaram logo para a confusão.
3. Os que estavam nas árvores em redor, avistaram o burburinho e engalfinharam-se logo a seguir.

O ínfimo som de 4 grãos que mal se vêem gerou uma avalanche de uma centena de pombos. Que outros fenómenos de amplificação espontânea de sinal existem na natureza? E que aplicações para o Homem poderão ter?

sexta-feira, janeiro 9

Livros 

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

Caetano Veloso


sexta-feira, janeiro 2

Compreender o problema 

Há que procurar entender o ponto de vista de quem excede os limites de velocidade.

Distingo diferentes níveis de desrespeito dos limites:

1. Há quem procure de todo não os exceder, podendo acontecer que o faça esporadicamente, por exemplo porque está atrasado (a pontualidade nunca foi o nosso forte) ou porque não reparou que ia demasiado depressa (isso é fácil de acontecer com o aumento de potência dos veículos e com a melhoria das estradas).

2. Há quem exceda os limites porque acha que não terá problemas com a polícia por andar uns 20-30 km/h acima do limite.

3. Há quem ultrapasse a velocidade por exemplo 40-60 km/h acima da máxima porque se acha bom condutor, julga que conhece perfeitamente os riscos (e acha que os polícias fazem caça à multa nestes casos) ou, simplesmente, porque não tem paciência para ir devagar (a recta é grande, nunca mais se chega à curva...).

4. Há quem exceda os limites de velocidade por exemplo 70 km/h ou mais porque tem um carro potente (ver o post abaixo) e/ou porque gosta da velocidade (satisfaz, alivia, excita) e/ou de infringir as leis. Incluem-se aparentemente neste grupo pessoas como as que reagem deste modo quando se acaba com os downloads de filmes sobre Street Racing ou que fazem/frequentam sites como este e este (é interessante ver os fóruns para se compreender as motivações das pessoas).

Haverá certamente outras situações correspondentes a diferentes misturas das razões acima (e de outras que não me lembro ou que desconheço) que levam a que se queira andar depressa, não se devendo pôr tudo no mesmo saco. Cada caso requer formas diferentes de lidar com as pessoas, estratégias de convencimento diferentes, níveis de repressão adaptados ao grau de excesso de velocidade e ao número de vezes que se repete a infracção. O objectivo é o de substituir estas diferentes culturas de velocidade, que tão disseminadas estão na nossa sociedade, por culturas de responsabilidade, de segurança e de respeito pelos outros e pelas leis. É um problema complicado mas, como todos os problemas, tem de ser compreendido na sua totalidade e atacado em todas as suas vertentes, para poder ser efectivamente resolvido.

"Surpresa com Honda S2000" 

[excerto de um tópico de fórum, que se pode ler na totalidade aqui]

F. - Pessoal do forum, não tenho palavras...sem eu saber os meus pais, mesmo antes de fazer os ultimos exames, encomendaram-me o S2000 preto com HT e acaba de chegar esta semana, assim levanto-o na semana que vem...embora eu tivesse duvidas, parece que a minha girl sabia que eu tendia mais para o S2000 em vez do S3 e ai está ele. No entanto, agradeço todas as opiniões, que ainda bem foram a favor do S2000 e agora é esperar até 3º ou 4º feira para o levantar. Até tenho passado as noites em claro, e amanha vou lá vê-lo, embora ainda com os plásticos. Tinha de partilhar uma experiência destas convosco.
Obrigado pelas opiniões... [...]

M. - Caro F.: Calculo o que deves estar a sentir. Os meus pais ofereceram-me um S2000 o ano passado, quando fiz 18 anos e entrei para Economia na Lusíada.Apesar de pessoalmente gostar mais do SLK na altura, hoje, oito meses passados, considero o S2000 bem mais exclusivo e é espectacular!! Mal o fui buscar à Garabem Atlas, ali na Lapa,
dirigi-me para a Vasco da Gama e acelerei a fundo. O conta quilómetros só parou nos 273!! O barulho é soberbo, o comportamento é excelente. Manda-me um e-mail para combinar-mos um picanço, para veres o que é que esse carro anda. Sugestão do percurso para o picanço: VG, AE até Setúbal, Serra da Arrábida, estradões em terra na zona do Meco ( não estragam o carro e são espectaculares para as atravessadelas...), 25 de Abril. Faço este percurso pelo menos uma vez por mês para desenferrujar as mãos e o pópó... Dá notícias Um abraço do M. PS: As miúdas adoram o carro, é pena só se poder levar uma de cada vez... [...]

ML. - Os meus parabéns pelo teu curso...fazes bem em acabá-lo! Parabéns pelo carro também..:)) .Aproveita-o bem...mas...mas....tudo tem sempre um mas. N me cabe a mim dar-te algum conselho nem nada parecido.Já tens idade suficiente para saber uke fazes.Apenas te keria comunicar k n transformes uma coisa boa, numa coisa má.Um carro desses nas mãos, tem por vezes, que se ter muita calma.Digo isto pk já tive um S2000.Por questões profissionais,tive de mudar de veículo.Uma brincadeira ou outra na estrada é engraçado...é giro...dá para descontrair.Mas tudo o que é demais enjoa!!Acho k com o tempo vais perceber....apenas te keria dizer para n ligares mt a uma mensagem k aki vi.Penso k é do M. .opá...andar depressa...de vez em kuando é bom..mas muito cuidado.Infelizmente já tive amigos k tiveram fins tristes, devido a acidentes infelizes.N quero agoirar..longe de mim!!Só que penso, k um gajo (M.) dão-lhe este carro e acelera até 273 (embora ele na realidade n vá a essa velocidade)na Vasco da Gama...n é prenuncio dum gajo com muito respeito pelos outros.Até pela conversa dele, deve ser um gajo peneirento, k ter um carro dakeles é tudo na vida.Quanto a picanços.Looooll...tu éke sabes.....desde k sejam em lugares onde se alguma coisa acontecer(espero k n) n implike alguém alheio!!O k dá gozo é n alinhar por vezes no picanço.Ainda ficam mais f...Agora a serio:eu vou ao Algarve todas as semanas.Vou e venho no mm dia.Só te digo; a merda k eu vejo na estrada, até dava para um filme de terror.Há verdadeiros gajos sem o minimo respeito por ng, do mais altruísta possível;verdadeiros --ASPA--assassinos--ASPA--.Aproveita o carro,diverte-te.Mas pensa numa coisa:ele só te servirá para alguma coisa se tu estiveres bem.Quanto a ele dar azo a k muita miúdas se interessem:LLLOOOLLLL.Se te kiserem só pelo carro, manda-as dar uma --ASPA--curva--ASPA--.Gajas interesseiras....arrrrggggghhhh. Looll Epá.K seca de mensagem, mas foi uke me ia na alma. Diverte-te, mas aproveita como deve de ser. [...]

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