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quarta-feira, agosto 31

Entulhar Portugal 

Portugal já foi um país de brandos costumes. Agora é um país de brutos costumes devido à branda fiscalização e legislação.

Como se não bastassem os incêndios a queimar-nos as florestas e cidades, temos ainda que aguentar com a queima do lixo e do entulho de obras que a nossa omnipresente indústria de construção civil semeia por todo o lado. A queima de 1 kg de lixo, por exemplo num bidon durante um fogo florestal, pode emitir centenas ou milhares de vezes mais dioxinas e furanos do que a queima de 1 kg de madeira "limpa" (digo "limpa" porque há também a madeira tratada, que pode emitir também centenas de vezes mais dioxinas do que a madeira limpa, por exemplo se for tratada com pentaclorofenol).

Porque é que em Portugal não se faz como noutros países ditos civilizados, onde é obrigatório o uso de contentores adequados para guardar os resíduos das obras e onde há legislação e fiscalização que desincentiva eficazmente a prática dos habituais despejos?

E já agora, não seria de estudar aprofundadamente os efeitos desta absurda queima anual de floresta-lixo na saúde da população portuguesa?

[Fotos: interior de Coimbra (3ª elipse a contar de cima, neste mapa), Agosto de 2005]

Para mais tarde recordar 


[Coimbra - Pinhal de Marrocos (neste mapa, é a elipse mais à esquerda). Clicar para ampliar.]

energia 

num país sem estratégia ou qualquer ideia de futuro, a não ser o TGV e o aeroporto da ota, talvez seja o momento de pensar no nosso futuro quanto ao abastecimento energético_ face à crise do abastecimento de combustíveis fósseis, cuja tendência é apenas para o agravamento, e já que o aquecimento global não comove políticos cujo horizonte temporal termina aos quatro anos (não querem ver/pensar em mais além no futuro), talvez seja de pensar numa estratégia de independência energética face às convulsões exteriores_ seria talvez de pegar nos milhões dos projectos megalómanos e investir na produção local de energia renovável_ se os alemães, num país tão pouco ensolarado, estão a investir fortemente em parques solares, porque não nós? e os dinamarqueses já conseguem 20% da sua energia a partir do vento! e porque não o nuclear como fonte capaz de cobrir a intermitência das energia renováveis? na minha opinião temos de abandonar alguns dos preconceitos relativamente ao nuclear e repensar esta opção (não emite CO2, temos reservas importantes de urânio, mas não é uma fonte de energia renovável e nem sabemos muito bem o que fazer com os resíduos...)_

riscos 

o grupo de geografia física da faculdade de letras da universidade de coimbra elaborou, anos atrás, um mapa de riscos da cidade de coimbra_ este mapa classifica as diferentes zonas da cidade de coimbra quanto aos riscos para as construções, sejam de derrocada, inundação ou de incêndio, entre outros, tendo em conta a geologia do terreno, a cobertura vegetal, o declive, a altitude, a proximidade de linhas de água, etc. este mapa existe há muitos anos mas ninguém lhe liga nenhuma_ nem a câmara municipal, nem quem constrói nem quem compra... em são francisco, nos estados unidos, o preço dos terrenos/habitações está fortemente correlacionado com a geologia do terreno, e logo com os riscos de derrocada em caso de terramoto! na cidade do cabo, na áfrica do sul, o mesmo acontece relativamente aos riscos de inundação (os brancos, nos tempos do apartheid racial, viviam na parte alta da cidade...)_ nós confiamos mais na sorte_ ou nos santos...

sábado, agosto 27

Coimbra ardida II 

As elipses azuis indicam áreas ardidas bem no interior do perímetro urbano. Para mais detalhe de imagem, ver post anterior.

sexta-feira, agosto 26

Coimbra ardida 

Em imagens de satélite, aqui e aqui . Alta resolução (12-14 MB): nordeste e sudeste. O que está a preto é o que ardeu.

quarta-feira, agosto 24

Precisões II 

"O problema é localizado. Repare-se que a dimensão da área ardida não chega a 3 por cento do território nacional. Não há que confundir o que são hectares ardidos com uma calamidade."
[Jaime Silva, Ministro da Agricultura, sobre a possibilidade de accionar o Plano Nacional de Emergência, no Público de hoje]

"Uff, são só 3% e não 10% ou 100%", deve pensar o leitor de jornais e revistas, "afinal não é uma calamidade."

Claro que 3% é uma calamidade. Mas a calamidade maior é termos gente tão cega a governar este país.

Precisões 

Leio na última Visão que ardeu mais de 10% do território português, isto numa altura em que a área ardida era cerca de 110 mil hectares (agora já vai em 180 mil...). Já tinha lido o mesmo na semana passada, no Expresso salvo erro. Que falta de cuidado, senhores jornalistas! Portugal tem cerca de 90 mil quilómetros quadrados e, que eu saiba, um quilómetro quadrado são 100 hectares (1 hectare é a área de um quadrado com 100 metros de lado). Portanto, Portugal tem cerca de 9 milhões de hectares de área e os jornalistas deveriam querer dizer que ardeu pouco mais de 1% do território nacional e não mais de 10%... (agora que a área ardida vai em 180 mil hectares, já se pode falar em 2%.)

E já agora: uma área não se mede em quilómetros, como eu li no Expresso (salvo erro) e ouvi, no mesmo dia, no jornal da TVI! Quilómetros quadrados sim, isso diz-me qualquer coisa!

[Adenda, 27/8/2005: no Expresso de hoje diz-se que a área de floresta de Portugal é 3,4 mil milhões de hectares. Se isso fosse verdade, seria mais do que a área dos dois maiores países do mundo juntos (Rússia e Canadá). O valor certo é 1000 vezes menor (3,4 milhões de hectares).]

novos curdos 

(lido algures na contracapa de um livro) a protagonista cita uma frase
do seu avô acerca do povo curdo (de que faz parte): "o nosso passado é triste, o nosso presente é uma catástrofe mas felizmente não temos futuro"_ ainda não chegámos lá, mas estamos no bom caminho :-(

segunda-feira, agosto 22

A minha casa ardeu? 

Não, mas apenas o soube por volta das 8h00. Passei a noite nesta incerteza. Primeiro evacuámos os filhos para casa de familiares. Cerca das 3h00, com o morro e o quintal nas traseiras a arder, com fogo também na encosta cheia de casas do outro lado do prédio (Coimbra), evacuámo-nos nós.

Esta manhã vizinhos contaram-me que as labaredas nas traseiras passavam por cima do prédio e eram visíveis no lado da frente. Nessa altura pensaram que o prédio estava a arder, mas felizmente não. Outros não terão tido tanta sorte. Bem, por aqui o perigo passou.
[foto tirada da varanda]

Incendiários para quê? 

Quando não se limpam as matas, não são precisos incendiários. Tirei hoje [ontem - tive de adiar a publicação deste post] esta fotografia numa mata nacional, onde fiz um piquenique. Vi quilómetros a perder de vista de pinhal que parecia não ser limpo há décadas, com algumas árvores extremamente ressequidas (pareciam queimadas, mas não). Havia um tapete contínuo de mato. Por vezes, encontravam-se árvores que tinham sido cortadas e abandonadas no local (seria para que tudo ardesse melhor?). O curto passeio ao longo da quase desaparecida estrada florestal, invadida pelo mato, permitiu perceber que é um milagre que aqueles milhares de hectares não tenham ainda ardido (espero não estar de novo a falar cedo de mais).

domingo, agosto 21

Porque é que vejo arder? 

Há apenas 4 dias, ao regressar de férias, escrevi neste post: "Vá lá, não foi desta que o monte verde nas traseiras da minha casa ardeu. Já não seria a primeira vez."

Falei cedo demais. Chego a casa e vejo labaredas da janela, ao longe. A minha varanda parece uma televisão.


Porque é que só Portugal arde cada vez mais? 



Área ardida em média por ano, em milhares de hectares
(fonte: Expresso, 13 de Agosto de 2005):
1980-19891990-19992000-2004
Portugal 74102190
Espanha245161129
França 39 23 32
Itália148109 77
Grécia 52 44 37


Destes dados se tira o gráfico abaixo, que mostra a evolução da área ardida em cada país relativamente aos anos 80. Porque é que só em Portugal o problema dos incêndios piorou (e muito!), enquanto que nos restantes países melhorou? Não aprendemos nada?



Para mim, um gráfico destes diz mais sobre a capacidade dos partidos que nos têm governado nestas últimas décadas do que as incontáveis operações de marketing a que nos sujeitaram. Faço tenção de nas próximas décadas não votar neles, em grande parte por causa daquilo que o gráfico representa: um falhanço total e absoluto de políticas e estratégias erradas, que foram seguidas durante demasiado tempo.

quarta-feira, agosto 17

Fogo que arde sem se ver 

É preciso ver para crer. Como se passa de um Portugal verde para um Portugal queimado em apenas dois meses? E porquê principalmente Portugal?
[usar as barras de scroll para percorrer as imagens]

Porque é que praticamente só Portugal arde? 

Este Agosto andei cerca de 1500 km de carro em Espanha, 1500 km em França e 300 km em Portugal. Em França, a autoestrada está ladeada de árvores a maior parte do tempo, tudo muito verdinho, bonito de se ver. Espanha está bastante seca, mas as terras estão tratadas e a produzir. Comparativamente, em Portugal a paisagem está bastante mais desordenada e os terrenos baldios, improdutivos, sucedem-se. Não vi qualquer sinal de fogos florestais em Espanha e França. Devo ter tido sorte: os noticiários franceses e espanhóis falavam de incêndios, eu é que não vi nada, nem sequer um bocadinho de mato queimado, zero. Fiquei a saber, por um noticiário francês, que a área ardida em Portugal corresponde a 7 vezes mais do que em Espanha e a 20 vezes mais do que em Itália. Esta notícia do DN (da qual tive conhecimento via Causa Nossa) confirma essa ideia de que Portugal é o triste campeão europeu de fogos florestais.

No regresso, pouco depois de entrar em Portugal, vi pela primeira vez nestas férias colunas de fumo. Umas 6 ou 7 em diferentes partes do trajecto de 180 km, nem sempre fáceis de distinguir da névoa que cobria todo o céu e que se devia aos incêndios. Perto de Nelas, duas zonas da estrada que estavam verdes há quinze dias atrás estavam agora pretas, o fogo tinha galgado a estrada. Uma dessas zonas ainda fumegava em diversos pontos. Ao longe, num outro incêndio, uma coluna de fumo preto invadia a névoa branca do céu, a desolação lembrava um cenário de guerra. Passei de novo pela enorme extensão queimada junto a Penacova, tinha-a visto pela primeira vez há quinze dias atrás, julgo. Chego a Coimbra. Vá lá, não foi desta que o monte verde nas traseiras da minha casa ardeu. Já não seria a primeira vez.

Não vá trabalhar cedo, não vá a pé... 

... mas sobretudo não perca a cabeça por trivialidades!

A estória que vou contar passou-se há uma hora. Está ainda fresca portanto...

Embora esteja de férias tinha umas coisas para tratar. Acordei cedo e fui a pé. Quarenta minutos depois, na Sé Velha, em frente à Faculdade de Farmácia, distraí-me e pisei um gigantesco monte de merda fresca de cão (alguém que tinha acordado mais cedo...). E agora como limpar? Na Suiça, eu sei, usam um saquinho, e até o deixam no lugar, para alguém vir limpar também o chão. Mas, adiante, que não havia saco que limpasse aquilo, e, além disso, nem todos os portugueses são incivilizados. Os meus vizinhos e conhecidos que têm cães usam um saco de plástico. E há casas de banho de cão pela cidade. Bem, na Sé Velha não...

Onde limpar, pois? O bar da Faculdade de Direito deve estar aberto e tem uma casa de banho. Caminhei um pouco, tentando gingar o sapato com discrição no areão do Páteo das Escolas, enquanto uns turistas italianos, agrupados, ouviam maravilhas sobre a Universidade. O letreiro da casa de banho era estranho e paradoxal: reservada a turistas (será que eu poderia usar numa emergência?), mas o pior é que estava fechada. No bar disseram-me que não havia outra disponível (a propósito, não pude deixar de reparar que o outro mítico letreiro já estava na mesa: reservado a docentes). Só às nove... No areão encontrei uma pedras maiores e limpei o que pude, já sem discrição...

Bem, e lá acabei por limpar aquilo (e bem limpo) noutro sítio e não vale a pena aborrecer-mo-nos com trivialidades. Há coisas mais importantes...

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