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quarta-feira, janeiro 23

Da arte de acreditar (II) 

There are times when inaccurate or fictitious stories are told and retold because just they seem so plausible. When what we hear could so easily be true, we often let down our critical guard, accept what we are told, and pass it on as is. Our standards for what is plausible, furthermore, are not always so high: sometimes what is necessary is a sense of ironic plausibility.

Thomas Gilovich, How we know what isn’t so.

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terça-feira, janeiro 22

Da arte de acreditar 

"To live, it seems, is to explain, to justify, and to find coherence among diverse outcomes, characteristics, and causes. With practice, we have learned to perform these tasks quickly and effectively."

Thomas Gilovich, How we know what isn’t so.

No entanto tendemos a ver ordem onde só há caos, a estabelecer correlações onde elas não existem, a observar aquilo que estamos à espera de observar.

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domingo, março 25

O fantasma do rei Leopoldo 

Uma história de voracidade, terror e heroísmo na África colonial. Um livro de Adam Hochschild, edição da Caminho, 2002, com tradução de Manuel Ruas.

O rei Leopoldo queria uma colónia. Para isso fez-se passar por filantropo e manobrou exploradores e governos. Prometeu acabar com o que restava da escravatura (providencialmente nas mãos dos mouros) e levar o comércio livre e o progresso a um suposto estado livre do Congo, o qual, na realidade, ficou sua propriedade. No entanto, em 1890, Edmund Morel, leal súbdito britânico a trabalhar para a companhia Holandesa que tinha a exclusividade do comércio com o Congo, dá conta de que os barcos trazem marfim e borracha, mas apenas levam armas e oficiais. Descobre assim o que alguns, mas poucos, já haviam encontrado: que vigorava no Congo um sistema de trabalhos forçados recorrendo a voluntários, que, estima-se hoje, haveria de causar milhões de mortos. Morel horrorizado não se conformou e iniciou assim uma das primeiras campanhas humanitárias à escala planetária, a qual contou com o apoio, entre outros, de Conan Doyle e Mark Twain. O livro é vibrante e pelo meio ainda deparamos com Conrad e a certeza de que o senhor Kurtz e o Coração das Trevas são afinal muito mais do que ficção.

Este livro mostra bem os mecanismos de como se podem alardear cinicamente as melhores intenções e praticar inpunemente as piores acções. Mas, com algum optimismo, mostra também que um punhado de pessoas decididas, mesmo não estando ligadas ao poder, pode mudar alguma coisa (infelizmente nem sempre para melhor). Este livro retrata também muito bem o espírito da época, ainda não completamente desaparecido, em relação a África e aos africanos, mostrando as suas contradições e hipocrisias. Por exemplo, um heróico missionário americano continua afinal a ser tratado como um cidadão de segunda no seu próprio país. Também, como os maus tratos e as mutilações (os tristemente famosos cortes de mãos e cabeças) eram quase sempre realizados por africanos, simultaneamente vítimas e carrascos, há muito espaço para as boas consciências dos brancos. Por outro lado, com a suposta indolência dos africanos se justificavam pela via moral os trabalhos forçados. Mas não se pense que os massacres e os trabalhos forçados existiam apenas no Congo: também os havia nas outras colónias com igual violência. E não se pense que só os outros têm esqueletos nos armários. Basta abrir um dos nossos, ainda não muito antigos, livros de história para encontrar todo um conjunto de pacificadores das tribos africanas...

Este texto não tem imagens, mas a internet está cheia de fotografias relacionadas com o Congo do rei Leopoldo.

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quarta-feira, março 21

Dos metais 


Adorava a cor amarela do ouro, o seu peso. A minha mãe tirava a aliança do dedo e deixava-me tê-la na mão um bocadinho enquanto me falava da imperacibilidade daquele metal, de como ele nunca perdia o brilho. – Repara como é pesado – acrescentava. É ainda mais pesado do que o chumbo. – Eu sabia o que era chumbo, porque mexera nos canos pesados e macios que o canalizador deixara lá em casa certo ano. O ouro era também macio, disse-me a minha mãe, e, por isso, costumava ser combinado com outro metal para torná-lo mais duro.
O mesmo sucedia com o cobre – era habitual misturá-lo com estanho para produzir bronze. Bronze! Esta simples palavra soava-me aos ouvidos como o grito de uma trombeta, pois uma batalha era o estrondear destemido do bronze contra o bronze, lanças de bronze contra escudos de bronze, o grande escudo de Aquiles. Também se podia misturar o cobre e o zinco, explicou-me a minha mãe, para produzir latão. Cada um de nós – a minha mãe, os meus irmãos e eu – tinha o seu candelabro de sete braços de latão para a Hanuká. (O meu pai tinha um de prata.)
Eu conhecia o cobre, a cor rosada e cintilante do grande caldeirão de cobre guardado na nossa cozinha – a minha mãe só se servia dele uma vez por ano, quando as maçãs silvestres e os marmelos do jardim amadureciam e era preciso cozê-los para fazer compota.
Conhecia o zinco: a bacia para os passarinhos tomarem banho no jardim, baça e vagamente azulada, era de zinco; e o estanho, de que era feito o grosso papel estanhado que embrulhava as sanduíches dos nossos piqueniques.

Oliver Sacks “O Tio Tungsténio” (Relógio D’Água)

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