Sexta-feira, Abril 18

Acordo Ortográfico? Hum! 1923 foi um bom ano... 


O convívio com os livros antigos é uma fonte inesgotável de humildade ortográfica. Neles os a-pesar-de convivem alegremente com os hei de e as mãis com as creanças. E podemos recuar a Camões e às suas misturas de termos eruditos com termos populares; parece que na altura já havia inveja, mas a última palavra dos Lusíadas é mesmo enveja. Por tudo isso, tento não me escandalizar com os alunos que escrevem lexívia. Embora, porque isso parece mais do que um problema de ortografia, o faça quando escrevem ter-mos que fazer...

O mais notável delírio ortográfico que conheço é uma terceira edição de 1923 de uma espécie de livro de auto-ajuda da época: A educação da vontade de um tal Julio Payot com tradução de Jaime Cortesão em que todos os guês que se lêem como jês foram mesmo escritos como jês. Veja-se a imagem para encontrar psicolójicos, orijem e intelijente. A ideia até parece lójica não é?

Neste texto não segui a nova ortografia, mas não tenho nada contra ela. Que venha conviver com as novas e as velhas, em especial com a delirante tentativa racionalista de 1923.

Terça-feira, Abril 1

Química na literatura e artes visuais 


A química, em comparação com a física e a biologia, aparece pouco na literatura moderna. Embora esteja presente em todo o lado na síntese e transformação de quase todos os materiais que nos rodeiam e ainda na análise das composições e detecção de perigos, não aparece ao leigo como uma coisa assim tão espectacular. Falta-lhe buracos negros e viagens no tempo, manipulação genética e resssureição de dinossaurios. Embora, actualmente, com as séries e livros de criminologia, a química seja mais visível, esta aparece na perspectiva técnica da realização dos crimes e sua descoberta, e não como uma forma de criação. Mesmo o Sherloque Holmes de Conan Doyle, personagem quase linear mas com o seu fundo de contradições, praticava a química para fazer novas descobertas no campo da criminologia; não era apenas um utilizador de técnicas químicas.

De facto, a química tem perdido na literatura a sua imagem de ciência de criação, no sentido filosófico, para se tornar uma ciência de criação de problemas concretos e práticos e sua resolução. A tradição alquímica ainda fornece temas, mas estes estão cada vez mais esbatidos. O cientista que se confunde com a sua criação, Frankenstein, ou O estranho caso do Dr Jekyll e Mr Hide, deram lugar à química prática da vida completamante controlada (embora à beira do abismo) do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. O cientista louco (muitas vezes um químico com a ideia megalómana de dominar o mundo) está em desuso. A loucura hoje em dia é ficcionada nas pequenas acções domésticas ou nas acções aparentemente inocentes do colectivo. Não é o cientista louco que vai destruir o mundo, somos todos nós aqueles que predamos os recursos e vamos sendo alienados pelo conforto moderno. E por aqui os químicos até podem começar a ser os bons; os que descobrem os problema a tempo e apresentam soluções mais verdes.

Numa vertente mais poética e profundamante ligada à filosofia e à procura de verdades profundas sobre nós e sobre o mundo, encontramos por vezes a química e os processos químicos como metáforas e imagem da vida. Por exemplo, As Afinidades Electivas de Goethe ou A Tabela Periódica de Primo Levi. Também os poemas de António Gedeão nos trazem a química para a vida. E não podemos esquecer a obra do químico Isaac Asimov e o singular Tio Tungsténio de Oliver Sacks.

Das ficções, publicadas nos anos 1980, de uma contaminação causada por industriais maus e burros, que despejavam benzeno nos rios na narrativa linear de Robin Cook, ou de um acidente com um produto químico que nunca se sabe o que é, na sociedade alienada de Ruído Branco de Don Dellilo, até ao acidente radioactivo que origina o comentário que é o título de Morrem Mais de Ataque Cardíaco... de Saul Bellow, em 1987, há muitas perspectivas dos problemas humanos que envolvem a química. Mais do que enumerar a aparição da química da literatura e artes visuais, verdadeiramente interessante será compreender as razões e as motivações dessa aparição.

Bibliografia consultada (para além dos livros referidos):

Roslynn Haynes, "The Alchemist in Fiction: The Master Narrative" HYLE 12 (2006) 5.
Peter Weingart, "Chemists and their Craft in Fiction Film" HYLE 12 (2006) 31.
Philip Ball, "Chemistry and Power in Recent American Fiction" HYLE 12 (2006) 45.
Charles A. Lucy, "Analytical Chemistry: A Literary Approach" J. Chem. Educ. 77 (2000) 459.

Segunda-feira, Março 31

Química na Bíblia 


A química é uma actividade humana que aparece reflectida em algumas passagens bíblicas, em especial no Antigo Testamento. O que é natural, pois o povo judaico esteve durante muito tempo no Egipto, país em que se cultivava a química e as suas aplicações tecnológias. Não é minha intenção escrever uma espécie de versão para blogues da Física do Cristianismo, mas apenas assinalar algumas passagens da Bíblia nas quais há, ou parece haver, referências à química ou a processos químicos.1 Algumas dessas referências são metafóricas, outras bastante crípticas e algumas são simplesmente associações que me parecem demasiado fantasistas. Em particular, as metafóricas são muito interessantes, pois indicam um uso da química que seria entendido pelos leitores dos textos sagrados.

Uma ligação à química que me parece algo exagerada, mas que é muito citada,2 é o adoçamento das águas por Moisés lançando-lhes um pedaço de madeira (Êxodo 15:22-25). Tratar-se-ia de uma forma de purificação da água por troca iónica.2 É interessante notar que Ben Sirac, no Eclesiastico, quando fala da Medicina e doença, se refere ao adoçamento das águas como sendo uma aplicação natural. A citação é bastante moderna no que concerne à química médica e farmacêutica (incluí entre parêntesis algumas notas para ajudar a compreensão):

Da terra o Senhor criou os símplices [ingredientes dos medicamentos], o homem sensato não os despreza. As águas não foram adoçadas com um lenho, para mostrar a sua virtude [dos símplices]? Ele é que deu ciência aos homens, a fim de que se gloriem com as suas obras poderosas. Por eles [os símplices], ele [o médico] curou e aliviou, o famacêutico fez as suas misturas.3

Referências as processos químicos antigos de purificação e identificação dos metais preciosos pelo fogo surgem em Zacarias (Zac 13:9) e Ezequiel (Ez 22:20-21), como uma metáfora bastante óbvia.
Embora não sejam aplicações químicas, há passagens na Bíblía que refletem efeitos de produtos químicos, nomeadamente de origem natural. Por exemplo, uma passagem do Livro dos Números (Num 11:31-33) é por vezes citada como sendo um envenamento por coniína, o alcalóide neurotóxico da cicuta (a mesma planta que foi usada para envenenar Sócrates). Finalmente, já um pouco no campo da física, não resisto a referir a interpretação da Arca da Aliança como um condensador tipo garrafa de Leyden, que sendo quase de certeza uma fantasia, não é de todo inverosímil. Basta ler a descrição detalhada da Arca (Ex 25:10-15) e a passagem da morte inexplicável de um homem apenas porque tocou na Arca quando esta estava a cair de um carro de bois (2Sam 6).


1Quem estiver interessado num tipo de análises, ao mesmo tempo pseudo-científicas e pseudo-religiosas, em que se pretende ver a Bíblia como um livro científico, o que para mim até poderá ser visto como uma redução inaceitável da dimensão da Bíblia, é só procurar na internet, que não falta.
2ver, por exemplo, C.A. Lucy J. Chem. Educ. 77 (2000) 459 e as suas referências. Como este texto não é uma publicação académica vou limitar as referências ao mínimo.
3Eclesiástico 38:5-7, A Bíblia de Jerusalém (nona edição revista, 1985, Paulus, S. Paulo, Brasil). Consultei, para as citações bíblicas, esta magnífica edição da Bíblia, recheada de notas e textos introdutórios, que me foi oferecida pelo tio Padre Alberto, missionário e professor em vários lugares do mundo que recentemente comemorou as suas bodas de ouro sacerdotais.

Imagem daqui.

Domingo, Março 30

Miniaturização, levitação e homens em espelho 

A miniaturização completa e simples de um ser humano conduziria a estruturas moleculares que seriam impossíveis. De facto, somos feitos de materiais que têm uma estrutura molecular bem definida. Pensemos só na água, já que cerca de 70% do nosso corpo é água: tanto uma molécula de água tem uma geometria de equilíbrio bem definida, como um conjunto grande de moléculas de água ocupa um determinado volume que varia muito pouco com as temperaturas e pressões a que estamos normalmente sujeitos (de facto as que podemos suportar!). Nem as moléculas de água do nosso corpo poderiam ficar mais pequenas, nem todo o conjunto delas poderia ocupar um volume significativamente menor, sem que o organismo ficasse sujeito a condições incompatíveis com a vida. E uma alteração radical da estrutura molecular do corpo do organismo miniaturizado seria possível? Bem, mesmo que tal fosse possível, como poderia ser garantido que se tratava do mesmo organismo, uma vez que não teria a mesma estrutura molecular? Além disso o volume ocupado pelo material genético, também não poderia ser muito reduzido, nem claro, o volume ocupado pelas células. Finalmente, relações menores entre superfície e volume trariam alterações enormes no metabolismo e dificuldades inultrapassáveis de deslocação e sustentação, como é bem explicado pela Ana Nunes.

E quanto a vencer os efeitos da gravidade, ou seja levitar, sem gastar toneladas de combustível como nos foguetões? Deixemos por agora os neutrinos de Frank Tipler de parte. Cyrano de Bergerac leva o seu herói a fazer a Viagem à Lua sem grande esforço, mas para essa viagem paradoxal não se procura uma explicação científica. Com H. G. Wells, em O Primeiro Homem na Lua, surge a ideia aparentemente científica de um material, a cavorite, que fosse opaco à gravidade. Obviamente, tal material viola as leis da termodinâmica, pois poderia ser usado como fonte de energia a partir do nada! Bastava levitar um material e em seguida deixá-lo cair, aproveitando essa queda para gerar trabalho. Clarke, em as Visões do Futuro refere que tal material seria tão paradoxal como a possibilidade de fazer um recipiente para um solvente universal. Restam os neutrinos, mas eu vou continuar a resistir-lhes, por agora!

Quanto ao homem em espelho, que Clarke também refere, é uma situação mais subtil. Um homem que por ter vindo de uma outra dimensão (seja lá o que isso for), ou por ter sido submetido a um qualquer processo de alteração molecular, no qual as suas moléculas com actividade óptica ficassem invertidas em relação ao normal, o seu problema menor seria a alcaravia lhe saber a hortelã-pimenta e vice versa. O mais provável seria ter de ter uma dieta especial para não morrer de fome ou envenenado por os seus processos bioquímicos não estarem adaptados aos isómeros ópticos dos alimentos do mundo normal.

Imagens daqui e daqui.

Sábado, Março 29

Teletransporte, homens invisíveis, pessoas miniaturizadas e outros prodígios 

Ainda inspirado por Arthur C. Clarke, algumas reflexões sobre visões, prodígios e fantasias.

Em geral, as pessoas não se dão conta de que a implementação técnica mais simples do teletransporte corresponderia a um método de duplicação. De facto, podemos imaginar enviar a uma velocidade enorme informação genética e molecular que seria reproduzida também a grande velocidade. Mas o que aconteceria ao original? Teria de ser destruido? Segundo Clarke o desenvolvimento de uma tecnologia assim seria útil para criar duplos, mas a quantidade de informação a enviar seria muitissimo grande e teríamos muitos problemas filosóficos e situações paradoxais. Como seriam teletransportados os pensamentos, as memórias e principalmente a noção de de ser um ser único e irrepetível? A fantasia do teletransporte surge, sem qualquer problema associado, nas séries e filmes Star Trek, mas, por exemplo, no filme A Mosca de David Cronemberg, já somos confrontados com alguns dos seus problemas. Uma mosca entra por acaso no aparelho de teletransporte e, resultado da mistura da informação genética enviada, segue-se uma repetição tecnológica da Metamorfose do Kafka. Penso que os paradoxos da duplicação e da unicidade do ser humano são muito mais difíceis de resolver que o problema tecnológico do envio da informação molecular.

O Homem Invisível de H. G. Wells fica invisível por ter ficado coberto com uma tinta especial. À partida, poderemos imaginar uma tinta que nos tornasse como um espelho, o que poderia fornecer algum tipo de camuflagem, mas não a invisibilidade. A verdadeira invisibilidade poderia ser obtida se a luz nos pudesse atravessar, o que implicaria, no entanto, uma alteração tão grande da nossa estrutura molecular, na qual nos tornaríamos como um vidro, que seria incompatível com continuar vivo. Uma forma de evitar isto e mesmo assim obter a invisibilidade, seria o material ou tinta conduzir a luz da frente para trás e vice-versa. Estava para escrever claro está que tal seria impossível por decerto violar várias leis da física, quando, procurando imagens sobre este assunto, encontrei um excelente post do Carlos Fiolhais sobre o homem invisível, que refere as propostas de John Pendry para a realização prática de um material com as características de permitir a invisibildade! Bem, de qualquer forma tanto o homem espelho como o homem invisível teriam o problema dos seus olhos não poderem ser cobertos com o tal material, caso contrário ficariam cegos...

Da miniaturização, que é impossível por implicar alterações moleculares também impossíveis e outros problemas menos óbvios, falarei depois. No entanto, por exemplo, no Solaris de Stanislaw Lem são sugeridas algumas pistas de ficção científica, as quais nos levam também à duplicação e à invisibilidade, mas com materiais de estrutura molecular diferente e com certeza não humanos. E que melhores materiais para estas coisas que os neutrinos? Os mesmos neutrinos, que Frank Tipler refere na Física do Cristianismo para explicar a levitação. Bem, e a levitação leva-nos de novo a H. G. Wells e a O primeiro homem na lua...

Também, enquanto procurava imagens no google, encontrei este interessantíssimo curso (foi daí que tirei a imagem do teletransporte na Star Trek).

Arthur C. Clarke: visões do futuro 


Há cerca de duas semanas andava à procura de pistas para uma conferência sobre química e literatura e encontrei um livro de Arthur C. Clarke que nunca tinha lido, Visões do futuro, o qual devorei num instante. Neste livro Clarke refere uma quantidade de cientistas que falharam as suas previsões pessimistas e enuncia as suas famosas três leis:

1. Quando um cientista distinto mas idoso diz que algo é possível, tem quase certamente razão. Quando diz que isso é impossível, está muito provavelmente errado.

2. A única forma de descobrir os limites do possível é ultrapassá-los até ao impossível.

3. Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.


Entretanto, embora nas suas previsões lá para o ano 2100 se vá chegar à imortalidade, Clarke não pôde esperar mais e morreu. Como era um optimista vai com certeza continuar vivo!

Quinta-feira, Março 27

Descobrir as diferenças 


Entre o monge de ouvidos tapados, olhos vendados, boca cerrada e coração fechado para o exterior e o moderno que ouvindo música muito alta não escuta o mundo, que tudo vendo em nada repara, que comunicando sem cessar, nada diz. O que os une é o fechamento e uma certa ideia de desperdício humano e alienação. O que os separa é o desperdício insensato de recursos e a falta de sustentabilidade ecológica. De qualquer forma, parafraseando Ranald Wright, estamos a introduzir software novo num hardware que tem 50000 anos.

Terça-feira, Março 25

da utilidade de ter duas palavras 

Pode perder-se a crença mas manter-se a . Pode fazer-se o contrário ou o oposto. E se não se quer chegar ao sexo poderemos ficar pelo género (embora não seja tão gostoso). E se uma coisa for legal pode mesmo assim ser ilegítima. E se não for eficiente pode ser eficaz. E se estamos fartos de estratégias, porque precisamos de tácticas. E se estamos parados porque não ficamos imóveis?

Quinta-feira, Março 6

The Birds 

Mais Hitchcock(iano) não podia ser.

Etiquetas: ,


Segunda-feira, Março 3

Correlações 

Um estudo, divulgado hoje, afirma que desde que foi despenalizada a ivg diminuiu a venda de pílulas do dia seguinte. E...?
É verdadeira a afirmação “foi despenalizada a ivg”, é supostamente verdadeira a afirmação “diminuiu a venda de pílulas do dia seguinte”, mas uma é o efeito da outra? Também podemos, por exemplo, afirmar que o verão passado foi menos quente e que diminuiu a venda de pílulas do dia seguinte e, obviamente, apesar das duas afirmações poderem ser verdadeiras é difícil acreditar que uma seja causada pela outra. As mulheres pensarão, para quê ir gastar agora dinheiro na pílula, se nem sequer sei se estou grávida, e se mais tarde posso fazer um aborto? Não parece muito plausível, pois não?

Etiquetas:


Quinta-feira, Fevereiro 28

Outbreak! Epidemia Sob Investigação 

Sabe como se investigam surtos de doenças, contagiosas ou não, que assumem proporções de epidemia? Identificar os sintomas e os agentes patogénicos na sua origem é seguir pistas, descartar hipóteses. Assemelha-se ao trabalho de um detective que investiga um crime. Qual o modus operandi? Quais os principais suspeitos? Qual o autor do “crime”?

Etiquetas:


Segunda-feira, Fevereiro 18

3 500 000 portugueses e o Hi5: Portugal e os números 

Li o post do FJV e, a bem do rigor, fui lá pôr um comentário duvidando daquela enormidade. E como de costume ninguém me ligou nenhuma. Já agora, ao cuidado da ministra da Educação, “sra ministra é alarmante o modo como os portugueses usam os números, pondo de lado qualquer juízo crítico em relação a essas coisas estranhas”. Sempre me lembro dos meus tempos de professora de liceu e os miúdos a justificarem-me, “pesos” negativos ou velocidades super-sónicas para um automóvel com “foi o que a calculadora deu”.

Valha-nos o Vasco Barreto que explica aqui tudo muito bem explicado. Leiam, Leiam!


"Imagine que 10 portugueses aderem ao Hi5 e que todos comunicam uns com os outros. Quantos portugueses se conheceram pelo Hi5? Eles são só 10, mas na verdade produziram 45 interacções diferentes - novos conhecimentos, se preferir. Há uma fórmula matemática para isto. Mas há também os dedos da mão. Abra as duas mãos com as palmas voltadas para si, comece no polegar esquerdo e conte em quantos dedos diferentes consegue tocar com esse polegar. Nove, certo? Use agora o dedo seguinte ( indicador da mão esquerda) e repita o mesmo exercício. Agora só já conta 8, pois o contacto entre o polegar e o indicador esquerdos seria repetir uma interacção prévia. Continuando a mudar de dedo, conta sucessivamente 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 novos contactos. Ao chegar ao polegar direito, são 0 as novas interacções, pois todos os outros dedos já haviam tomado a iniciativa de o conhecer. Somando tudo, temos 9+8+7+6+5+4+3+2+1=45. Ou seja, 10 portugueses no Hi5 geram 45 potenciais conhecimentos. E quanto mais popular for o site, maior será a disparidade entre o número de conhecimentos potenciais e o número de inscritos. Quantos portugueses são suficientes para produzir 3 500 000 interacções? Menos de 3000."

Etiquetas: ,


Domingo, Fevereiro 17

O número de estórias é limitado 


No século XIV, a caminho de Santiago um peregrino é injustamente acusado de um crime em Santo Domingo de la Calzada.Uma galinha que ia ser comida cacareja e o peregrino é salvo. No século XVI acontece algo semelhante, mas agora quem canta é o galo de Barcelos. Um galináceo nunca canta só, mas o nosso cresceu e tornou-se a imagem do país para turistas. A rainha Santa Isabel da Hungria faz um milagre com rosas. Sua sobrinha, Rainha Santa Isabel de Portugal também. Pode ser que seja genético isto dos milagres das rosas, mas no nosso caso terá havido alguma ajuda secreta, conta-se. Por vezes as estórias foram primeiro nossas, como a de Pedro o Cruel de Portugal e de Inês de Castro rainha depois de morta. E só depois do seu sobrinho Pedro o Cruel de Castela, que também fez rainha depois de morta a sua amante Maria Padilha. Mas se a nossa história de amor e crueldade se tornou um mito romântico conhecido em todo o mundo, a de Maria Padilha ficou esquecida até renascer no Brasil como pomba-gira, uma nova estória. E se a Virgem apareceu em Lourdes no século XIX, e, se já havia aparecido como Virgem Negra no México no século XVI, foi mesmo em Portugal em Fátima que a estória foi mais longe. O número de estórias é limitado. A nossa capacidade de acreditar, de as reinventar e de nos maravilhar, não.

Sexta-feira, Fevereiro 15

Os incentivos, os transplantes e o Sporting 

Ontem era para escrever sobre isto, mas depois com os afazeres normais fui-me esquecendo. Hoje ao ler o Eduardo Pitta, voltou-me a indignação. Não propriamente em relação ao que o Eduardo escreve e que me parece importante, mas em relação a uma afirmação do Dr. Eduardo Barroso no jornal da 2 de quarta-feira, e que se calhar passou despercebida. Pois a páginas tantas o Dr. Eduardo Barroso, ex-director do serviço de cirurgia-geral e transplantação do Hospital Curry Cabral, de Lisboa, hoje presidente da Autoridade para os Serviços de Sangue e de Transplantação, proferiu esta afirmação espantosa, qualquer coisa como isto (cito de memória) “Veja,... (nome da jornalista), que eu para estar aqui estou a perder o jogo do Sporting, veja a importância que eu dou a este assunto”. Puta que pariu, haja desplante!

Etiquetas:


Debate público "Cidade, arte e política: o valor estratégico da cultura!" 

Quarta-feira, 20 de Fevereiro, pelas 17:00h., no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra.

Moderado por Abílio Hernandez, o debate contará com as intervenções iniciais de António Pedro Pita, José António Bandeirinha, José Reis, Manuel Maria Carrilho e Paula Abreu, sendo aberto a todos os presentes na sala.

Tal como anunciado anteriormente, pretendemos que este seja um momento de encontro e de discussão entre as largas centenas de pessoas que se juntaram e continuam ainda a juntar ao movimento, defendendo a importância da cultura no desenvolvimento das cidades e reflectindo sobre o papel fundamental das autarquias na concepção e na concretização de políticas culturais consistentes.

Amigos da Cultura

Etiquetas: , ,


Terça-feira, Fevereiro 12

Do ensino da música 

Concordar com o que escreve, Fernando Sobral, seria demasiado optimista. Era acreditar que temos, agora, uma nação com alma crítica... era acreditar, entre outras coisas, na bondade do sistema que temos para o ensino da música às nossas crianças. Nada mais falso. O maestro Virgílio Caseiro, que tem ao longo da vida lutado pela primordial importância da música na educação, diz com graça e ironia, quando pede aos adultos que acompanhem com la, la, las as músicas que os seus alunos executam, “porque o la foi a única nota que o sistema educativo português nos ensinou”.
Mas o que os meninos de hoje têm é pouco mais . No ano em que o meu filho entrou no primeiro grau de violoncelo havia no conservatório de Coimbra duas vagas para esse instrumento, em duzentos mil habitantes de Coimbra e arredores 2 crianças tiveram, nesse ano, possibilidade de começar a estudar violoncelo no conservatório. Com os miúdos do primeiro ciclo acontece a mesma coisa, por cada um que entra, centenas ficam de fora. E quantas escolas públicas de música há em Portugal? Uma dúzia?
Se eu acho que por ser para poucos deve acabar? Claro que não, como me dizia um professora do conservatório, começar um instrumento no 1º grau, é como começar a escolaridade obrigatória no 5º ano, sem ter feito a primária. Se acredito no ensino da música que se faz actualmente nas escolas do 1º ciclo? Claro que não, as aulas de enriquecimento qualquer coisa, ao que sei, não servem nem para atirar areia para os olhos. Todos os miúdos têm que ter um ensino da música de qualidade, independentemente da vocação, independentemente de virem a ingressar ou não no conservatório. Isso, para mim, é que é óbvio e essencial.


adenda

Há 6 escolas públicas de ensino especializado da música.

Para quem quiser aí está o polémico relatório. Ao contrário de muita gente eu não acho que este relatório tenha sido elaborado por um bando de malfeitores a soldo de outro bando de malfeitores. Se as soluções que preconizam para os problemas do ensino artístico em Portugal (e que numa leitura hiper-transversal me parecem correctamente identificados) são as melhores é que já não sei.

Etiquetas: ,


Quinta-feira, Fevereiro 7

O shampô cancerígeno e as personagens de ficção 


Ouvia na Antena 1 o programa Esplendor de Portugal. Juan Goldin, Ronaldo Bonnachi e Ana Djaimilia Almeida, simpátios estrangeiros a viver entre nós, comentam coisas de Portugal e do mundo. Foi por eles que soube do recente estudo da UKTV Gold sobre a dificuldade dos britânicos em distinguirem as personagens de ficção das personalidades reais. Sem ficha técnica, apenas sabendo que foram inquiridos 3000 britânicos, faltam-nos muitos dados. Foi um estudo de resposta voluntária ou um inquérito genuínamente aleatório? Nada disto foi discutido, mas os comentadores foram muito sensatos a analisarem o tal estudo. Gostei de os ouvir. O pior foi quando um deles se saiu com o já velho mito urbano do shampô cancerígeno. A ignorância e a suspensão do juizo crítico quando as matérias são vagamente científicas, num mundo cheio de informação é tão ou mais grave como a dificuldade de distinguir personagens reais ou de ficção. É que num mundo cheio de informação julga-se que se sabe uma coisa quando apenas se teve acesso a informação e acredita-se só porque alguém se deu ao trabalho de a difundir. Mas fará algum sentido muita da informação que nos enviam, ou a que temos acesso, que parece encaixar tão bem nas nossas visões do mundo cheias de conspirações e maldades ocultas? Fará mesmo algum sentido que os produtos estejam cheios de produtos concerígenos e ninguém os retire do mercado, ou pelo menos não ponha neles um aviso como os do tabaco? Estou à espera de um inquérito sobre isto. Entretanto recordo a campanha para banir o óxido de dihidrogénio.

This page is powered by Blogger. Isn't yours? Weblog Commenting by HaloScan.com